terça-feira, 30 de setembro de 2014

Quando se é Jovem

quando se é jovem, e se pensa que mudará o mundo/ e solucionará os problemas sociais do seu país/ que se defenderá uma causa e carregará uma bandeira/ então todo o seu corpo e sua mente ficam fervorosos/ desejando mudanças revoluções soluções/ E, de tanto anseio, as inquietudes lhe fazem sofrer/ as mazelas parecem infindáveis/ as angústias atormentam seus pensamentos/ a miséria a fome a desigualdade/ insinuam-se mais provocantes/ E os momentos de desânimo/ de querer se entregar/ são ainda mais perturbadores/ Inicia-se, então, uma luta árdua, ferrenha, entre a realidade do Caos e a beleza dos sonhos... quando se é jovem

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

ALDEIA GLOBAL

ah, mundo, mundo
um dia já foste vasto
e tiveste um vate chamado Raimundo

mas hoje em dia
és apenas uma aldeia global
uma aldeia global toda paliçada
de fibras óticas e cordões umbilicais
e já não há quem ainda te ache assim tão-vasto
e o teu vate, sem disparate
nem rima mais com teu nome

ah, mundo, mundo
pequena aldeia global
se fostes ainda vasto
e te chamaste Mundo
eu até que poderia ser

o teu mineiro Raimundo

domingo, 7 de setembro de 2014

7 DE SETEMBRO

que dia é 7 de setembro?

       eu nem me lembro

desses remorsos que são a História

          dia luta?

        dia de glória?

      Já nem me lembro


escassez da memória

terça-feira, 2 de setembro de 2014

TERRA DE HIPÓCRITAS

A Lua finge iluminar a Terra
O Sol finge aquecer a Terra
    A terra finge que é Terra

A água finge saciar toda a sede da Terra
Os políticos fingem administrar a terra
O povo finge ser feliz
e acreditar no progresso da terra
A Terra finge progredir
    A Terra finge que é terra

Os Impérios democráticos
fingem levar a democracia para a terra
A ONU finge tentar impedir os Impérios
de quererem dominar toda a terra
    A Terra finge que é Terra

A juventude finge ser o futuro da terra
A terra finge dar frutos para a Terra
O Homem finge que a Terra
é a terra que ele quer
A terra finge que é terra

    E tudo finge ser o que (não) é

terça-feira, 26 de agosto de 2014

ESCRITOS PANFLETÁRIOS

O Novo Sonho

Hoje é o dia pra sonhar/ Não levanta da sua cama/ não levante do chão/ Fique onde está/ Porque hoje é o dia feito sonho/ Hoje é o dia pra sonhar

Arranhe as janelas de vidro/ com suas unhas de metal/ Feche os céus lá fora/ Cubra todos os móveis/ com cortinas de nuvens/ Coma as flores e os objetos/ Encoste a cabeça no solo/ e sinta o palpitar dos ruídos/ vindos das ruas/ vindos de longe/ vindos de perto/ vindos dos sonhos

Hoje o dia não vai ser tão-lindo/ Hoje é o dia pra sonhar/ Sonhar com uma madrugada vermelha/ com os olhos brancos/ corpos verdes/ mãos azuis/ e sentimentos amarelos

Não... não levante sua cabeça/ pra tentar ver o que não se passa lá fora/ Presta atenção no que lhe acontece aí dentro/ É, aí mesmo: nos seus sonhos/ Hoje é o dia feito pra nascer

Recolha suas roupas/ seus filhos/ amigos/ vizinhos/ desconhecidos/ seus chinelos/ Deite-se e deixe todos ao seu redor/ Corta fora todas as vozes/ todos os passos/ todos os panos/ E lhes conte que hoje, sim, é o dia da Grande Criação – da criação de um novo Sonho/ E lhes mostre que ainda se pode sonhar, ainda/ Mas não lhes diga absurdos de monstros, seres e mundos extraterrenos/ Diga-lhes que o fantástico, hoje, é construir – em sonho – um mundo novo


E só vá dormir o seu sono/ quando todos estiverem dormindo profundamente/ e sonhando com leveza/ o novo dia... O novo dia que será anunciado – por todos e a todos – sobre o despertar do novo sonho

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Mais Uma Vez

"(..)Eu quero aprender cada vez mais a considerar a necessidade das coisas como o belo em si – assim, eu serei um daqueles que tornam as coisas belas, amor fati: que seja este de agora em diante o meu amor! Eu não vou fazer guerra contra o feio, eu não o acusarei mais, eu não acusarei nem mesmo os acusadores. Suspender o olhar, que esta seja minha única forma de negar. Eu não quero, a partir desse momento, ser outra coisa senão pura afirmação." Nietzsche, Gaia Ciência, §276



Tanto tempo levei
para me livrar dessa tristeza
E de tudo o que sei
hoje sei, não vale muito


O muito que ouvi
quem dizia nunca se mostrou

De tanto caçar
de tudo já sonhei
E o tempo ainda passa
Os meus olhos não me veem

Aquele amor não dá graça
E as minhas lágrimas
são lágrimas de ressaca


Pelos mares da vida
a navegar, naufraguei
Meu corpo é uma vela
E o vento
quantas vezes não soprei?

Eu nunca me vi numa ilha
esperando por alguém
Mas a vida ainda leva
E eu sei tão bem
que o tempo que me resta
eu mesmo o estimei

Pensei estar vivo
Na verdade, já nem sei

A loucura me parece tão bonita
que desejo me encontrar com ela
em algumas dessas ruas ou avenidas
por onde nunca passei

Mas meus olhos não enxergam
o que tantos olhos veem

A dor que me persegue
eu mesmo a cultivei


E, em seu fluxo, o mundo ainda me leva,

sem cessar, mais uma vez...

terça-feira, 5 de agosto de 2014

SUICÍDIO

A ideia do suicídio é um forte consolo. Ajuda a suportar muitas noites más.”Para além do bem e do mal, Nietzsche

...qual é, por que tá hesitando tanto, já não basta de tanta indecisão? Oh, calma, respira, respira. Devagar, se concentra! Meu coração palpita forte demais, ou serão ruídos lá fora? Não posso mais continuar com essa vida, mas também não gostaria de morrer. Vou continuar aqui, quieto, esperando me convencer do que eu sempre tentei me fazer acreditar. Queria parar de chorar, de tremer, de sentir o meu corpo todo como se tivesse sendo consumido por frias chamas, minhas lágrimas ardem. Vejo tudo distorcido, ardendo. Alguém está à minha espera, mas já não quero comparecer a este encontro. Quantas e quantas vezes eu faltei a encontros, a reuniões, a compromissos? Quantos não ficaram a me esperar, ansiosos, aguardando inutilmente a minha chegada? Àqueles, eu pude faltar sem mais explicações ou pretextos. A essa, que agora sinto que me espera pacientemente, não sei se poderei fugir. Eu a chamei, a invoquei por muito tempo, ou marquei esse encontro inevitável, esse encontro precipitado. Sei que poderia adiá-lo – haverá tempo para isso? Passos, como se tivessem se aproximando, uma multidão a me espreitar. Todos me aguardam! Como demoro, vêm a mim. Não, eu não quero! Não mais! Não agora! Sentir meu coração disparado me faz desesperar, ele não se acalma, aperto ele com minhas mãos trêmulas, elas tão suadas, quentes. Meu corpo, frio... o peito arde... a cabeça a formigar e a minha boca tá seca... Como é horrível chegar a uma decisão a que já não se tem certeza! Não deveria ter permitido me desviar pelos pensamentos. A consciência me faz reconsiderar, ponderar. Até mesmo vacilar. Dar espaço aos impulsos, é o que eu deveria ter feito. Seria rápido, profundo e constante. E depois, em meio a tanta agonia, era só esperar o sangue me cobrir os olhos e me penetrar todos os sentidos... e morrer sem compreender bem que morria. Como num escurecer. O sangue espalhado ao redor do meu corpo – o sublime manto -, prova da minha coragem desesperada. O meu sangue me protegeria das ações das pessoas. Ele as afastaria de mim. Elas não gostam do sangue, muito menos do sangue dum suicida, de alguém que se renegou às circunstâncias da vida... Acham o sangue impuro, maldito... substância plena e simbólica dos ardores da existência e da morte. O sangue dum suicida não é rubro, nem vermelho. É sangue! É desprezível como o ser que o derramou, que o fez jorrar gratuitamente. O sangue dum suicida é sagrado, é profano: sagrado, porque faz parte da celebração dum ritual divino; profano, porque esse ritual divino também é pagão, devido ao paganismo de quem o celebra. Mas então é isso: o sangue sacroprofano é o que irá me purificar, me libertar, me integrar de volta ao plano de que fomos todos perdidos. Mas eu ainda terei ânimo para derramá-lo, terei coragem para verter dolorosamente esse meu sangue? Já nem me lembro por que quero me matar. Muitas coisas passam pela minha mente ao mesmo tempo, porém, são só lembranças e pensamentos e ideias que não se deixam agarrar, não se fixam no meu consciente, não estou certa da natureza deles. Agora me lembro que ainda ontem eu relembrava que fui aprendendo, forçosamente, me submetendo e me coagindo a não temer a solidão, a loucura e a lucidez extremas, a frieza natural dos objetos e das paredes dos edifícios. Eu me forcei a aprender a ser mais tolerante com os equívocos e com os preconceitos, com as atitudes mesquinhas das pessoas, que por vezes nos afagam, nos sufocam e até mesmo nos matam... Há um tempo elas já não me interessam. Eu me coagir a aprender que muitas coisas são possíveis e que poucas delas são verdadeiras, legitimas. Fui aprendendo tudo que se oferecia a mim, e apreendendo tudo que eu me obrigava recusar, e então eu me perguntei: o que é que me ficou, o que é que me sobrou, o que eu tinha conseguido acumular, oh, o que é que eu tinha para me segurar, para me apoiar, para me confirmar, para me agarrar e não cair trágica e pateticamente? Ah, se todos se negam a me ajudar, se todos me negam um suporte, minha nossa, como isso é tão forte e irreal! Matar-se é tão difícil quanto viver. E agora percebo que em nada essas duas questões se resumem ao fato de se ter ou não coragem para realizá-las e encarná-las de sentidos. O problema que as envolve, e com o qual eu me deparo, é profundamente complicado! E a única coisa que me parece sobrar, é chegar a hipóteses vagas e imprecisas sobre ele... Me lembro de certas palavras