quinta-feira, 30 de julho de 2015

NO TEU DESERTO

MIGUEL

quero me perder no teu deserto
no deserto do teu corpo
nas dunas do teu dorso
quero me afogar nas areias dos teus cabelos
que as carícias das tuas mãos
me açoitem com a fúria de uma tempestade
que  o silêncio entre nós
nos deixe ouvir
“os ruídos das estrelas”

*
CLÁUDIA

Quando fores embora
e me deixar sozinha no vazio
me sentirei obrigada a ir em busca de nós
no deserto
a recolher memórias
como um arqueólogo de afetos
Talvez me vejas num take esquecido
dos teus filmes
a vagar por um mundo de poeira calor e frio
sedenta do companheiro de viagem perdido
e com olhos carregados de solidão e desejo
a estender os braços para tocar o teu rosto –
uma miragem de fato e gravata

no teu deserto

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O Poeta no Espelho

Passei a máquina de escrever para o outro quarto,
onde posso me ver no espelho enquanto escrevo. 
Henry Miller, in O Boxeador Polaco, de Eduardo Halfon

acabo de desperdiçar folhas de papel
todas amassadas e sem nenhuma palavra
apenas um vício pegajoso
de cheiro forte

quanto desperdício
frases não escritas
imagens não evocadas

pilhas de folhas brancas amassadas 
com rascunhos de seres de cabeça e cauda

rumo ao mundo sem futuro
mais uma poesia perdida
no fundo, não queria dizer nada mesmo
quanta ironia!
ou autopiedade?
em compor poemas para logo em seguida maldizê-los

- ao menos limpa essa baba do canto da boca. Senta e escreve. Pois as palavras... estas, sim, são teu vício pegajoso.
Elas te submetem, lacônico
e de nada valem os esquivos e os subterfúgios 
e as artimanhas contra os versos.
Nesta luta injusta, em que está prostrado, 
as tuas mãos cavam o teu abismo sob teus olhos
a refletirem tua deprimente imagem 
nas janelas escuras
do teu quarto

enquanto escreves para esquecer como se escreve
um poema sem pautas
patético périplo estético
poeta
nu
no espelho

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Ameaças Homeopáticas de Suicídio

OS VERSOS
OS POEMAS
A POESIA

O CHORO
O RISO
A RAIVA

A MASTURBAÇÃO
O DELIRIO
O VICIO

O GOZO – A SOLIDÃO

- TUDO! TUDO!
Tudo por VOCÊ
E o pior de tudo
é que eu já nem sei mais
quem é você

*


Logo Após as Ameaças Homeopáticas de Suicídio

Nada de você me resta
Nada de você me deixa
Nada em você me diz

Nada de você é tudo o que quero

Mas nada... Nada... Nada...
- me aconselha essa cartomante
transoceânica

E eu vou me afogando
nadafraugando aos poucos
nesse mar corroído
nessas salsugens amarosas

quinta-feira, 12 de março de 2015

A Descoberta da Solidão

Você sempre idealizou a solidão
Mas nunca esteve realmente sozinho
Agora sabe por que os primeiros humanos
Se reuniam em volta da fogueira
Para contar histórias, estrelas
Logo você
Sempre se achando tão diferente
Agora descobriu que quer o mesmo que todos querem
E mesmo assim prefere não dizer
Você não sabia, e dói aprender assim
Sabendo que a solidão também pode ser
Uma forma discreta de ressentimento
No silêncio da casa é que você percebe
Quão carentes nós somos
Não importa essa tristeza
Quando se sabe que não se pode contar nem consigo mesmo
Logo você
Que sempre idealizou a solidão
Agora sabe, e mais do que saber, sente
O que é estar realmente sozinho

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Quem nunca amou, não sabe do que seu egoísmo é capaz

Eu quero levar uma vida moderninha
Deixar minha menininha sair sozinha
Não ser machista e não bancar o possessivo
Ser mais seguro e não ser tão impulsivo

Mas eu me mordo de ciúme
Ultraje a Rigor - Ciúme

Quem nunca amou, não sabe do que seu egoísmo é capaz. Esse pensamento me ocorreu quando eu estava deitado sobre as pernas dela, ouvindo ela me chamar de mesquinho depois que eu lhe contei sobre a péssima noite que eu tive de angústias, delírios e insônia, ao deixá-la sair sozinha com as amigas.

O ciúme é uma insônia infernal. (De um anônimo de um século qualquer)

Ela tentou me explicar sobre a insegurança, sobre a falta de confiança necessária no outro e em si mesmo que caracterizariam tal sentimento, entre outros argumentos que geralmente são usados por essas novas mulheres desses novos tempos para tentarem convencerem os homens de seu “machismo inconsciente”.
Os pensamentos que tive, as dúvidas, os devaneios e até mesmo os ímpetos violentos e sádicos que me acometeram e me perturbaram noite a dentro, me fizeram considerar o ciúme como uma das mais elevadas manifestações de egoísmo. Não se tratando, dessa forma, como ela tentava me convencer, de fidelidade, de confiança, de machismo. Mas sim, de desejo, de poder, de posse.

- Mesquinho? (Eu exclamei sinceramente ofendido)

Também, certamente. Não vou negar esse lado obscuro e frágil deste sentimento enfermo. Porém, as grandes paixões – as verdadeiras paixões são egoístas!, como escrevera Stendhal. Somente aqueles que levaram até as últimas consequências seus atos apaixonados para alcançar, para realizar os seus anseios ardentes e ridículos é que podem entender perfeitamente, com aquela expressão alucinada de riso contido, do que o egoísmo é capaz. E, em se tratando de relação amorosa, somente esses loucos passionais, esses megalomaníacos se sensibilizam com o grau de obscuridade ao qual o amor pode chegar.

O ciúme é um bálsamo de cicuta e ácido. (De algum grego anônimo)

- Loucura?

Não. Apenas uma lucidez sombria. De olhos de fogo e língua flamejante. Um ser de fogo que, enquanto se consome, lança suas garras-labaredas sobre o outro – estopim e objeto. E se ergue com a desenvoltura desmedida de um fogaréu incontrolável e infatigável.
O ciúme é como ser lançado em um pântano de larvas, e ver-se obrigado a forjar, a partir de si mesmo, o ser do qual você fora despojado. Seus destroços insuficientes e ínfimos para obrar tal projeto.

Ela percebeu que eu já não a ouvia mais. Imerso em meus pensamentos. Silenciou e fez carícias na minha cabeça.

Levantei de súbito. E sem dizer nada e sem olhar para ela, saí andando, sentindo uma vontade terrível de chorar e, principalmente, de fazê-la sofrer. Também. Essa noite, ela me paga...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

EI, GAROTO

Ei, garoto
Para onde você vai
Com esse olhar cheio de mágoas
E esses sonhos todos amassados
No bolso da calça?

Ei, garoto
Você sente mesmo pena dos soldados
Que lutam e morrem em guerras?
Mas você sabe que todos os dias
Você também luta e morre
Por ideais em que você não acredita

Ei, garoto
Quem sabe um dia
Você não ganha sua própria medalha
Por fazer aquilo que quer

Ei, garoto
Para onde você vai
Se arrastando por aí
Com essa cara de cachorro escorraçado?

Será que não consegue sentir
O cheiro dela no vento abafado que sopra?

Ei, garoto
Para que toda essa marra
E esses papéis?
Onde estão os seus amigos?
E o que eles, o que vocês sonhavam?
Uma féria por ano e carteira assinada?
(Não, não, você deve estar brincando...)

Ei, garoto, o que fizeram com você?
Por que você permitiu que aqueles velhos
Lhes colocassem gravatas de nós apertados?
Será que nunca ouviu a canção não se foge da luta?

Ei, garoto
Por que se enganar
Ignorando a glória
E os holofotes sobre o ídolo rock star?
Você não toca guitarra e, hilário dizer, mas também não sabe cantar
Faz rimas tão óbvias que suas queixas parecem refrões
De música pop

Ah, sim, me desculpe
Sua geração não fala de acontecimentos históricos
Para contar histórias de amor
Só aprenderam a serem cínicos e céticos
Sua geração de ironia estéril
Ninguém viu vocês na TV
Já que vocês se escondem é na internet
Esse labirinto metafórico dos seus anseios

Ei, garoto
Ah, a vida não presta?
Então pra que essa pressa de quem tem certeza de que jamais vai morrer?


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

CHÁ DE POEJO

“Sente-se e beba chá de poejo
Destile a vida que está dentro de mim”
Pennyroyal Tea, Nirvana

O hálito quente de chá de poejo. A tosse seca. Não curou o chiado do peito. Nem amenizou a pressão. O aroma da erva. Daqui – à janela do sétimo andar. A luz desperdiçando o sol da manhã.  Sua imagem. No outdoor com moldura de madeira fina. “Informe publicitário: O direito à vida é inalienável”. Difícil mesmo foi ter que te levar naquele lugar. Bairro decente de subúrbio, desses em que o silêncio das ruas abafa os gritos de dor dos seus moradores. Não fosse a indicação exata da amiga, como acharíamos. Como é mesmo que se diz? Pensei num cartaz, um projeto gráfico. Sua expressão melancólica ampliada desproporcionalmente num zoom antirromântico. A pele rugosa das imperfeições do grude. Usaram rolos e baldes pra montar seu ideogramafacial.  Nesse porta-retratos de autoestrada. Na frente do prédio. Atrás do mar. Anunciando você. Perdeu-se de mim. “Paga-se bem por qualquer informação que possa...” Se publicar? Com essa nova Lei, quem sabe ninguém nem veja. Logo ao fundo é possível ver o esqueleto inerte de mais um prédio em construção. Seus olhos fugitivos de mim, em ângulo desfavorável à vista. Podia ligar na agência e reclamar e pedir meu dinheiro de volta. Esses moleques coladores. Rugas e estrias. Colagem mais malfeita. O espaço quase imperceptível no canto dos olhos. A impressão de quem desvia o olhar. Ao longe, na paisagem desconforme, a borra do chá no fundo do bule, no fundo da calcinha. Chá. Chão. Xá de alumínio. Chicára de porcelana. O contorno do copo pura poeira. O colchão no assoalho. Deitado com a máquina no tripé desnivelado. Seu olhar em foco. Descarregada. Sem click. Da lente fotográfica, olho no olho. Meu olho na lente dentro do seu olho. Se chover, ventar forte demais por muito tempo, sua pele de papel pode se desfazer. Feito feto escorrendo pelas pernas. Que loucura pensar nisso logo agora. Seu rosto pálido. Envelhecido. Reflexo mudo na parede do banheiro. Olhos lacrimejando. Xá-preto com coca. Para acompanhar, biscoitos placebos. Nosso filho perdido. Nos postes perto da clínica, restos de panfletos com palavras de protestos. Direito à vida... Fetos... Vidas... Merecem nascer... Amor materno. Secreto. Quem sabe, um diário escolar maldizendo os pais em garranchos revoltosos, nos acusando por tê-lo colocado nesse mundo contra sua vontade. Espermas também têm direito aos direitos humanos. Consciência insciente, rebelde. Fixei você num outdoor. Out dor. Infusão uterina. Chá-de-bebê. Noves meses sem encontrar você. “... não tem preço...”, dizeres de um anúncio na rádio. Pra te procurar daqui. De máquina na mão. Janela do Sétimo Andar. Tão estático como água fundida no solo. In útero inchado. Saquinhos de choro. Consolo. Sem ninguém pra adular. O que eu quis foi te proteger. Risco de deixar você sozinha. Naquele estado. Não tinha como a gente saber. Seguir a tabela. Em letras minúsculas: não contém glúten nem gordura trans. Reações adversas: efeito abortivo em ingestão com coca. Gestação. Quem diria que um simples costume milenar poderia afetar um feto. Água barrenta. Sem afeto. Um girino a coachar no bulebrejo. COAR-CHÁ! COAR-CHÁ! O choro agudo e insistente. Num cesto. A sair do útero para um cesto de lixo. O céu sem nuvens. Chárope expectorante. Antibiótico faz acelerar o coração. Já o tempo. Quando chegarem, encontrarão um recado sem assinatura no espelho pregado logo acima da pia do banheiro. Apaguem as luzes pra não ter que verem dentro da privada pedaços amorfos se desfazendo líquidos, vermelhos, lamacentos. Limpem o cinzeiro cheio de parafina e incenso. Cubram os pequeninos restos mortais em plástico bolha. Eu vou ficar. Até permanecer longamente... até que substituam sua imagem-cartaz por um anúncio qualquer de empreendimento domiciliar com uma família feliz. Casas. Apartamentos. Filhos. Apartar do peito os sofrimentos. Ir atrás de você escorrendo com nosso filho pelo ralo. Vai fugir de mim? Água fria, bolacha murcha. Melhor deixar a mesa pronta caso você resolva voltar hoje à noite, ou quem sabe amanhã enquanto durmo. Sem sonhar. Vejo tudo. Da janela, do sétimo andar, eles me acenam lá de baixo. Estão me chamando. Parecem feliz.