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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Tristeza x Melancolia


Breves considerações sobre a tristeza e a melancolia sob uma perspectiva nietzschiana

- Eu não estou triste. Sou melancólico. Qual a diferença?

Bem, o triste acha tudo sem graça, as pessoas, as coisas, a vida, por uma ou mais razões. Já o melancólico acha que, apesar de nem tudo ter graça e sentido e razão, ainda assim a Vida é uma experiência que vale a pena.

O triste, geralmente, é um debochado, um cínico, um fatalista. O melancólico acha que cinismo e ceticismo sem alegria são sintomas nem sempre óbvios de desespero e agonia; e por isso, considera-se um ser trágico.

O que o triste sente ele contamina a natureza, as suas formas, as suas cores, a sua contingência. O melancólico tem consciência de que, independente do que ele sente, só ele sente, ainda que outros tenham sentimentos semelhantes.

O triste confirma sua visão de mundo nas desgraças da existência, e se desfaz, facilmente, diante de sua patética solidão a encarar-lhe do espelho. O melancólico sente a dor de cada perda, a dor de cada angústia sem motivo aparente, mas, de alguma forma, se alegra quando vê seu reflexo frágil de coragem e medo.

O que sabe que irá morrer e se ressente da vida por isso é um sujeito triste, é uma pessoa com os olhos encobertos pela densa névoa da tristeza.
O melancólico também sabe que vai morrer, isso ele não nega, nem poderia ignorar. Mas também sabe que, enquanto isso não acontecer, terá que viver, escolher, sofrer, amar, perder, ser feliz, ou talvez nem todo esse amálgama de experiências vitais. E é aí, exatamente, nesse ponto de incerteza que reside a força, o desejo, o afã que o impulsiona para que siga, para que diga sim à Vida.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Quem nunca amou, não sabe do que seu egoísmo é capaz

Eu quero levar uma vida moderninha
Deixar minha menininha sair sozinha
Não ser machista e não bancar o possessivo
Ser mais seguro e não ser tão impulsivo

Mas eu me mordo de ciúme
Ultraje a Rigor - Ciúme

Quem nunca amou, não sabe do que seu egoísmo é capaz. Esse pensamento me ocorreu quando eu estava deitado sobre as pernas dela, ouvindo ela me chamar de mesquinho depois que eu lhe contei sobre a péssima noite que eu tive de angústias, delírios e insônia, ao deixá-la sair sozinha com as amigas.

O ciúme é uma insônia infernal. (De um anônimo de um século qualquer)

Ela tentou me explicar sobre a insegurança, sobre a falta de confiança necessária no outro e em si mesmo que caracterizariam tal sentimento, entre outros argumentos que geralmente são usados por essas novas mulheres desses novos tempos para tentarem convencerem os homens de seu “machismo inconsciente”.
Os pensamentos que tive, as dúvidas, os devaneios e até mesmo os ímpetos violentos e sádicos que me acometeram e me perturbaram noite a dentro, me fizeram considerar o ciúme como uma das mais elevadas manifestações de egoísmo. Não se tratando, dessa forma, como ela tentava me convencer, de fidelidade, de confiança, de machismo. Mas sim, de desejo, de poder, de posse.

- Mesquinho? (Eu exclamei sinceramente ofendido)

Também, certamente. Não vou negar esse lado obscuro e frágil deste sentimento enfermo. Porém, as grandes paixões – as verdadeiras paixões são egoístas!, como escrevera Stendhal. Somente aqueles que levaram até as últimas consequências seus atos apaixonados para alcançar, para realizar os seus anseios ardentes e ridículos é que podem entender perfeitamente, com aquela expressão alucinada de riso contido, do que o egoísmo é capaz. E, em se tratando de relação amorosa, somente esses loucos passionais, esses megalomaníacos se sensibilizam com o grau de obscuridade ao qual o amor pode chegar.

O ciúme é um bálsamo de cicuta e ácido. (De algum grego anônimo)

- Loucura?

Não. Apenas uma lucidez sombria. De olhos de fogo e língua flamejante. Um ser de fogo que, enquanto se consome, lança suas garras-labaredas sobre o outro – estopim e objeto. E se ergue com a desenvoltura desmedida de um fogaréu incontrolável e infatigável.
O ciúme é como ser lançado em um pântano de larvas, e ver-se obrigado a forjar, a partir de si mesmo, o ser do qual você fora despojado. Seus destroços insuficientes e ínfimos para obrar tal projeto.

Ela percebeu que eu já não a ouvia mais. Imerso em meus pensamentos. Silenciou e fez carícias na minha cabeça.

Levantei de súbito. E sem dizer nada e sem olhar para ela, saí andando, sentindo uma vontade terrível de chorar e, principalmente, de fazê-la sofrer. Também. Essa noite, ela me paga...

quinta-feira, 29 de maio de 2014

xxx Poesia Porno xxx

Inútil Fingir

— Ora, menina!
Se te amo?
Mas é claro que te amo
E te amo com ternura
Só não finja que não sabe
que também anseio você nua...


Poema Saidinho (2006)

Sou poema que quer se deitar com você
Por isso, agora, me põe no seu colo
e deixe que as palavras saíam do limite da folha
           [e sejam mãos acariciando os seus joelhos

            Isso!

Imagina eu ajoelhado diante de você
com os olhos à altura dos seus seios
desejando tocá-los
com o mesmo fervor com que toca em mim

         ...afago sua cintura
         seu quadril
         e inclino minha cabeça
         no meio de suas pernas latejantes

        Devagar
        bem devagar
        com leveza e suavidade

Sinto o gosto humano
e o calor de suas coxas...


      Isso
            Oh
      Isso
           Oh
     Ah
          Oh

    (o suspiro é um susto de deleite)

— Já não sou mais só um poema
    e você não é mais só uma leitora

Suas mãos estão em mim
assim como minhas palavras
    delirantes
    erram por você toda...

    Isso, vai!
Sinta comigo... descubra
o desejo carnal de ser possuído
   lido
   sublimado...




Calma, amor
Devagar
Me deixa sentir
sua cintura
o seu cheiro
Me deixa perceber
os movimentos de suas mãos
dos seus lábios
de suas pernas...
Geme, amor
devagar, baixinho...

    Calma, amor
    Devagar
    que eu vou divagar

    pelo teu corpo





segunda-feira, 12 de maio de 2014

Poemas Nietzscheanos

Sem Linguagem

Ficar diante das coisas
é vê-las e só pensar:
vejo... elas existem...
A vida plena
a existência sem linguagem
Só palavras... As coisas...
O murmúrio
A mudez de tudo
em tudo

Condicional

Sério
Sereno
Mudo
Como sério
Seria tudo
Que sereno
Mudo
Se fizesse
Sem no entanto
Mudo
Consentir com tudo
Que não lhe fosse
Sério
Sereno
Mútuo


Poema Para Ser Esquecido

Poema para ser esquecido
Esquece-o
e jamais esquecerá
que um dia já o tivera lido
só para esquecê-lo em seguida
como se nunca tivera sido

Esquece-o

sem pensá-lo
porque pensar é contrário ao olvido
e contrariar o que quer ser esquecido
é condená-lo ao passado

Esquece-o

totalmente
como se ele estivesse escrito
com as palavras desnudas de silêncio

Esquece-o

em seus ouvidos
porque
ainda que o lera
um dia
ele jamais lembrará
que já o tivera lido

Esquece-o...
porque só a Eternidade
pura do esquecimento
é que o eternizará
no Templo do Olvido


Palavras-formigas

Folha de papal
em branco
é como um monte
de açúcar glacê:
atrai um bando de
palavras-formigas
que aos poucos
se amontoam
e se deixam ler


Peçonha

Põe o meu dedo em sua boca
como quem fosse beijar uma serpente

Vai... Assim... Sem medo
pois se algum veneno inocular em você
(tenha certeza)
não sairá pelo meu dedo


Canção Pra te Ouvir

Levanta
ou senta
Fica à vontade
Se bater a saudade
diz o que posso fazer
pra te ver sorrir

Só não fica assim
de pé
na vigília senfim
da solidão

Diz o que quer
Eu sei que te quero
E não te trago
em sonhos vãos

Esses teus olhos acesos
dois círios iluminados
na amplidão calada
E a tua música sensível só
aos meus sentidos

Fala do tempo
       futuro
       antigo
Conta pra mim
sobre aqueles amigos

Diz que eu te conheço
      desde hoje
      desde nunca
      desde sempre

Diz qualquer coisa
mesmo no silêncio
só pr'eu saber
como cantar pra você
e te ouvir


Ainda Sem V C ^

Olho no espelho/procurando sua face/mas como poderia ver o seu rosto/com os seus olhos?/A luz refletida do espelho/me atravessa/Algo em você/me atravessa
Sua luz seu calor/Há algo em você/que resplandece/em mim
Ou será delírio meu/Eu que estou sob um sol escaldante?/Não sei até onde isso importa...

Só sei e sinto/sem estar com V C ^