Eu estava em uma cidade há muito tempo esquecida. As ruas, desertas, pareciam não ter fim. Uma atmosfera pesada, sem ruídos, nem passos. Nada que pudesse nos fazer lembrar que, milênios antes, por ali, transitavam pessoas, carros. Prédios.
Me deparei com um ser de olhos profundos, cabelos pretos, encaracolados, estranhamente esvoaçantes. O ar praticamente não existia. Aproximou-se de mim, olhando-me com certa doçura e curiosidade. Ofereceu-me algo. Não compreendi. Parecia ser uma cápsula grande ou, talvez, um tubo de ensaio, daqueles de pescoço fino e longo. Sem dizer uma palavra, aceitei, bebi.
Olhei ao redor e tudo se transformara. Casas germinavam do chão feito árvores centenárias buscando o brilho do sol. Estrelas pequeninas e cintilantes despencavam do céu e se estilhaçavam no solo translúcido. Ruas surgiam num ritmo alucinante, enquanto sombras humanoides se abraçavam, se beijavam, copulavam por todos os lados. Tudo muito colorido, iluminado. Sem som. Sem rosto, nem gosto.
Uma porta de madeira maciça, cor de sangue, surgiu na minha frente. Comecei a observá-la pela parte inferior e fui subindo os olhos até me deparar com a vastidão longitudinal com que ela, a porta, se impunha diante de mim. Me senti zonzo. Um clarão surgiu de um dos cantos e só senti o magnetismo de uma força estranha me puxando para si.
Uma voz robotizada dizia:
- Bem-vindo ao Projeto Chronos. Nossa nave utiliza o efeito de dilatação temporal para explorar o continuum espaço-tempo. Você agora é um observador do e no tempo, capaz de manipular a curvatura do espaço-temporal.
O beep do celular despertando trouxe-me de volta à realidade mundana. Suspirei aliviado, passei as mãos sobre o rosto. Notei que algo piscava em meu pulso direito. Lembrei que não usava relógio. Olhei novamente para o antebraço e vi, no pulso dormente, um dispositivo que piscava regularmente e emitia um som baixinho. Toquei-lhe no que parecia ser a tela. A principio, vi apenas meu reflexo reduzido à escuridão infinita. Segundos depois, apareceram as palavras: Missão iniciada. Coeficiente de dilatação: 3, 14. Pronto para sincronizar com o fluxo temporal.
Tentei me levantar da cama, mas apenas sorri para o tempo.