sábado, 21 de dezembro de 2024

Projeto Chronos

Eu estava em uma cidade há muito tempo esquecida. As ruas, desertas, pareciam não ter fim. Uma atmosfera pesada, sem ruídos, nem passos. Nada que pudesse nos fazer lembrar que, milênios antes, por ali, transitavam pessoas, carros. Prédios. 

Me deparei com um ser de olhos profundos, cabelos pretos, encaracolados, estranhamente esvoaçantes. O ar praticamente não existia. Aproximou-se de mim, olhando-me com certa doçura e curiosidade. Ofereceu-me algo. Não compreendi. Parecia ser uma cápsula grande ou, talvez, um tubo de ensaio, daqueles de pescoço fino e longo. Sem dizer uma palavra, aceitei, bebi.

Olhei ao redor e tudo se transformara. Casas germinavam do chão feito árvores centenárias buscando o brilho do sol. Estrelas pequeninas e cintilantes despencavam do céu e se estilhaçavam no solo translúcido. Ruas surgiam num ritmo alucinante, enquanto sombras humanoides se abraçavam, se beijavam, copulavam por todos os lados. Tudo muito colorido, iluminado. Sem som. Sem rosto, nem gosto.

Uma porta de madeira maciça, cor de sangue, surgiu na minha frente. Comecei a observá-la pela parte inferior e fui subindo os olhos até me deparar com a vastidão longitudinal com que ela, a porta, se impunha diante de mim. Me senti zonzo. Um clarão surgiu de um dos cantos e só senti o magnetismo de uma força estranha me puxando para si.

Uma voz robotizada dizia:

- Bem-vindo ao Projeto Chronos. Nossa nave utiliza o efeito de dilatação temporal para explorar o continuum espaço-tempo. Você agora é um observador do e no tempo, capaz de manipular a curvatura do espaço-temporal.

O beep do celular despertando trouxe-me de volta à realidade mundana. Suspirei aliviado, passei as mãos sobre o rosto. Notei que algo piscava em meu pulso direito. Lembrei que não usava relógio. Olhei novamente para o antebraço e vi, no pulso dormente, um dispositivo que piscava regularmente e emitia um som baixinho. Toquei-lhe no que parecia ser a tela. A principio, vi apenas meu reflexo reduzido à escuridão infinita. Segundos depois, apareceram as palavras: Missão iniciada. Coeficiente de dilatação: 3, 14. Pronto para sincronizar com o fluxo temporal.

Tentei me levantar da cama, mas apenas sorri para o tempo.


sábado, 5 de outubro de 2024

Tentações de um cético

Estava eu sentado na praça de alimentação de um shopping numa cidade que não era a minha. Estava na boa, só curtindo aquela preguicinha típica que dá na gente depois que comemos. Mexia no celular, olhando de bobeira as postagens nas redes sociais, quando chegaram dois rapazes e se colocaram na minha frente. Um deles me perguntou algo, mas, como eu estava distraído, pedi que repetisse. Ao fazê-lo, suas palavras pronunciadas com calma e firmeza se tornaram mais claras: 

  • - Posso, ou melhor, podemos orar por você? 


  • Estranhei aquela pergunta. 


  • - Mas como, orar por mim?! 


Ao que o meu interlocutor repetiu sorrindo, mantendo a voz firme: 

  • - É! Podemos orar por você?


Atônito na minha incredulidade, olhei, primeiro, para o rapaz que me perguntara e, depois, para o outro, que o acompanhava, tentando captar algum sinal neles que pudesse indicar que aquilo se tratava de alguma brincadeira, alguma pegadinha, dessas que gravam as pessoas por aí e depois transmitem nas redes sociais, expondo o ridículo do ser humano diante de situações descabidas. Ainda pensei se tratar de alguma piada religiosa, talvez algo que fosse comum entre aqueles que professavam aquela fé (seja lá qual fosse). Não disse nada para eles. E sorri sem graça, mal abrindo a boca. 

Eles permaneceram diante de mim, tranquilos, serenos. Como eu demorasse para responder, notei que, o que me fizera a pergunta (ou seria uma proposta), demonstrava uma certa ansiedade, provavelmente, na expectativa de que eu aceitasse logo sua oferta. Permaneci calado também, coloquei o celular em cima da mesa, com a tela desbloqueada. Queria que vissem o tipo de conteúdo que eu estava acessando naquele momento tão prosaico. O outro, que não falara nada, desviou o olhar da tela do meu celular. Já o meu interlocutor continuava olhando para mim como se eu fosse capaz de entender suas intenções através do seu olhar persistente.  

Me ocorreu que, assim como os santos antigos passavam por provações e provocações de entidades diabólicas, com o aval do assim chamado divino superior, aqueles rapazes, no meu caso, eram como que os enviados de uma estância desconhecida, na qual eu não acreditava, mas que, talvez, tivessem sido ‘enviados” justamente para colocar à prova as minhas convicções metafísicas. Diante de tal constatação, por mais absurda que me parecesse, resisti àquele apelo religioso, que quase cedi por mera educação. Pensamentos céticos me dominaram, orientando-me de forma resoluta na minha decisão em recusar aquela oferta. E eu disse, simplesmente: 

  • - Não.


Já certo de que teria que contra-argumentar diante da persistência dos meus “anjos caídos”, peguei o celular da mesa para demonstrar meu desinteresse por eles. Chegara uma notificação de mensagem. Já ia proferir algumas palavras de resistência, mas, ao levantar a cabeça e me dirigir aos rapazes, eles haviam desaparecido, tão repentinamente como tinham surgido minutos antes. Virei a cabeça, olhei ao redor procurando entre as poucas pessoas que transitavam àquela hora pelo shopping se não identificaria os dois jovens. Seja porque, certamente, se misturaram aos demais transeuntes, seja porque, na verdade, não retive com atenção aspectos que me ajudassem distingui-los dos demais, certo é que não fui capaz de localizá-los. 

Tentei desbloquear o celular por várias vezes, mas sem sucesso. Na tela, só conseguia ler a mensagem: telefone bloqueado por várias tentativas erradas. Aguarde e tente novamente. Foi o que fiz. Mesmo assim, nada. 

Fiquei pensando: é cada uma que uma pessoa cética, descrente de tudo, tem que passar às vezes... 

sábado, 23 de dezembro de 2023

Poesia - Miúda

Em vão procuras palavras em outras bocas

Versos alheios nada sabem da tua tristeza
Nada têm a ver com a tua solidão

Tua boca torta num esgar de choro
Consola tuas palavras que se convertem em riso
Estás enlouquecendo, encarando-te num quarto sem luz ou espelhos
E o reflexo que vês
És tu mesmo em sombra

A escuridão também sabe te seduzir 
E te envolver como uma bela amante
Tem um cheiro confortante
E mãos tão delicadas e meigas
Que não consegues ver a lama espessa que há por baixo das unhas dela
Essa que só pode te dar um amor sombrio

Em vão recitas versos em voz alta
Para, escuta
Dá voz ao teu silêncio
Ele te clama e chama por ti
Mas segues alucinados citando versos escritos
Por mãos que não as tuas

Não percebes que a poesia nessas horas
É como beber um doce veneno
Do qual não se deseja mais que um gole?
Bebes
Sorves
Versos latinos de tempos imemoriais

Abres uma página e em vez de palavras e rimas
O que vês? Tu bem sabes... 
É o nome dela
Palavra pequena
Em letra miúda

O nome dela a invadir por toda parte
Contaminando versos e poemas
Móveis, tapetes, silêncios e sombras
Tudo... tudo... tudo...

Recitas entre lábios 
Cada sílaba do nome dela
Nome marítimo que te faz querer entrar no Mar
Mar aberto, grandioso e borbulhante
Indiferente a todo sofrimento e drama humanos

Mas é o teu Mar
O mesmo em que muitas manhãs semi-iluminadas
Vias olhos de ressaca te chamarem para dentro de si

O mar aberto e infinito te chama
Ondas e marés altas arrastam teu corpo
Como sereias mortas levadas pela gravidade lunar
Andas descalço sobre areia
Recolhes conchas, retalhos, águas-vivas
Espólios de um náufrago que tem o teu codinome

Como é doce e quente a loucura do autoengano
Bem sabes que onde estás não tem mar
Não tem ondas
Nem náufragos, sereias ou até mesmo águas-vivas 

Temes a noite que te consome
Essa amante voraz que te morde os lábios 
E bebe das tuas lágrimas

Fosses romântico teu delírio ardiria em febre
Lembranças desencontradas de alguém que já não tens contigo

Em vão recitas os sofrimentos de outros poetas
Abraça tua dor
Teu choro
Teus sentimentos
Sinta essa poesia que floresce a partir de ti
A partir de palavras
Pequenas
Saudades
Tão grandes
Imensas
Miúda - é também o teu nome
Ainda que eu queira chamar-te Poesia

Paloma ruiva


_em algumas línguas te chamam Paloma
ave urbana, marginalizada, 
outrora símbolo da paz, da esperança

_mas teu olhar ruivo reluz
Me convida e me repele a um só tempo
Desafio afetivo a me provocar
Paz - aqui não há
a não ser quando te chamam pomba

Paloma...

_Voar no teu céu 
deve ser como viver acima das nuvens e dos medos
Voar nesse teu céu
Morrer como teu segredo

_corpo voraz
Serpente
De repente, serpentinas
a devorar a ave que voa e inocente se aproxima
Doce impulso suicida
Fascinada pelo teu sorriso
teus encantos
Um abismo de cachos nesses teus cabelos

_Paloma
ave que revoa
em meio a noite, iluminada
Feito fogo
Fagulha vermelha
Cabelos revoltos
Ave embrasada

_quem me dera poder pousar em tuas asas
em teus ombros
em teu pescoço
ou no teu colo
E te olhar como quem encara um espelho d'água misterioso
profundo

_ave
Eva
Voa
E me leva
para dentro de ti
Esse meu ser que nada tem a lhe oferecer
a não ser sacrifício e devoção
loucura e desejo

_leve ave que voa e me leva
contigo
pra dentro de ti
onde for












terça-feira, 29 de novembro de 2022

_mArtE uM :: uMa joRnada nOs AfeTos

No filme Marte Um vivenciamos a história de uma família negra que vive na periferia de Belo Horizonte - MG. 

A mãe, Tércia, é empregada doméstica, diarista, personagem emblemática da nossa sociedade de passado escravagista. Tércia é personagem com profundidade própria, individual e, ao mesmo tempo, personifica milhares de mulheres negras, como a minha mãe, que sempre estiverem presentes nos lares familiares ajudando a construir a vida social e dos afetos desse país, mesmo não tendo o mais que merecido reconhecimento tanto em termos pessoais, profissionais e sociais.

O pai, Wellington, zelador/jardineiro num condomínio de gente rica, rica em termos de dinheiro e só, é também um tipo muito bem conhecido em algumas famílias periféricas, já que costuma ser muito mais raro vermos uma figura paterna nesses contextos. Wellington até é um pai trabalhador, dedicado, afetivo, apesar disso, é marcado por uma existência de valores morais retrógradas e rígidos, Já que se mostra não atuante nos afazeres domésticos, é preconceituoso com a sexualidade da própria filha e, assim como milhares de homens Brasil afora, sofre os percalços de ter que conviver com um vício muito característico da nossa realidade: o alcoolismo.

A filha mais velha é Eunice, bolsista numa universidade federal de direito. E está naquela fase em que os valores familiares entrem em choque com a realidade de uma identidade conflituosa em construção. Ela quer ser independente mas sem perder os vínculos com a família. Quer assumir sua sexualidade sem que isso gere atritos no âmbito familiar. Gosta de Joana mas não se sente à vontade em manifestar publicamente todo seu afeto pela amada. Eunice está naquela fase de transição entre o fim da adolescência e começo da vida adulta. Uma fase de incertezas, impasses, mas também de ímpetos sonhadores e libertadores. 

E temos ainda Deivinho, o filho mais novo, habilidoso e admirador de futebol, principalmente por influência paterna, cujo sonho maior é ser um astrofísico. Ele é criativo, curioso, hábil, introspectivo, adoro ver vídeos de astronomia, do Neyl Degrasse Tyson, e sonha em um dia ser um dos tripulantes da missão que pretende levar os primeiros humanos para colonizarem Marte.

Todos na família tem seus sonhos, seus medos, frustrações, anseios, desafetos, e vão sendo afetados pouco a pouco pela História política do país após a ascensão de um governo de extrema direita. Qualquer paralelo com a realidade atual (não) é mera coincidência.

Uma história sensível, tão única e particular ao retratar os percalços de uma família negra vivendo numa periferia de um estado fora do eixo rio-são paulo, mas é também uma história que nos toca pela sua universalidade ao tratar de temas caros a qualquer ser humano em qualquer perto do mundo.

Do escuro espacial de uma sala de cinema, ao acompanhar as desventuras dessas pessoas, somos convidados a uma imersão humana, cósmica até eu diria. Sofremos e vibramos com cada momento dramático ou trágico-cômico dessa jornada. A jornada de sermos os primeiros humanos a chegar a um destino tão distante que, vista de lá, a Terra nos parece menos que um "pálido ponto azul". Fomos e seremos pioneiros, sempre fomos, desde que nossos ancestrais começaram a desbravar esse planeta.

Essa será uma jornada sem volta. Tocante, emocionante, da qual certamente você não vai querer voltar. Marte Um - uma jornada nos afetos.


sábado, 24 de setembro de 2022

Fazes-me falta

Fazes-me falta, miúda

Tua presença ausência

Se faz sentir por toda a casa

Por todo canto no mundo

Para onde olho e não te vejo


Há um silêncio absoluto

Crescendo dentro de mim

Na mesma velocidade 

Com que galáxias

E estrelas 

Se expandem universo afora


Falas comigo e já não sou capaz de te ouvir

Ofereces-me tuas mãos sem substância

E tua boca sem brilho

E já não sou capaz de tocá-las

Ou sentir o cheiro da tua pele


Fazes-me falta

Porque tua ausência onipresente

Em todo lugar

Dentro de mim

Se projeta sombra sem corpo

Encobrindo de solidão meu ser tão frágil


Havia algo em ti que me pertencia

Uma semente informe evoluindo aos poucos

Negrume sem lume

Vazio uterino de dilatações exponenciais

A lógica retórica de uma recusa disfarçada


A vida esvaziada 

De todo sentido de existência

Afeto feito fel 

Derramando pensamentos desencontrados

Choros contidos de olhos fechados


Fazes-me falta e não te vejo

Evito espelhos por me lembrarem a imagem

De um homem 

Sem jeito para as coisas práticas


Era tu, miúda, que me vestia 

Para os rituais banais da vida cotidiana

Que me dizia a melhor combinação

Entre sapatos calças e camisas

Gravatas e meias...


Agora abro o guarda-roupas

Entre cabides em sentinela

Eu vejo um monstro indistinto

Visto-me sem convicção

Lembrando tuas palavras afiadas


Fazes-me falta

E nem mesmo a dor saudade

De ti

Me cabe mais no peito


Morrer, pequena, é deixar de sentir

E eu ainda te sinto

Ainda que não estejas mais aqui 

sábado, 6 de agosto de 2022

Poetas roubam

Otto, os poetas roubam

Roubam tudo que é poesia

Eles roubam a luz da manhã

E do sol da tarde que arde fria


Os poetas roubam

Eles não sabem criar

São crianças imersas

Em palavras diversas

De versos e rimas

Poetas roubam

Esse é seu jeito de brincar


Os poetas roubam 

Suspiros apaixonados

E o choro convulso

De quem se desespera

E guardam tudo em suas memórias confusas

Escrevem como se sentissem

E sentem o que não escrevem


Nunca confie num poeta, Otto

Poetas roubam

E a poesia não passa de uma coleção

De objetos e artefatos alheios


Poetas roubam

Aquele beijo doce

Roubam

Aquele grito amargo

Roubam

Aquele riso frouxo

Roubam

Aquele triste fado


Suas palavras versam sobre a Vida e a Morte -

Esta lida contínua entre a sobrevivência e a plenitude

Eles clamam "Viver é eterno!

Mas amar, amar dura só um instante"


O verso encobre a tragédia do existir

Viver sempre foi um exercício

Um jogo de amarelinha, não é mesmo Horácio

Uma brincadeira à beira do Grande Abismo

Ainda que houvesse Céu e Inferno

Entre eles também haveria de ter 

muitos passos, muitas casas

Atirar uma pedra em rumo delas

é jogar-se no mundo e se arriscar

Poucos sabem ignorar a máxima suprema -

Viver é muito perigoso


Ouve! Escuta! Repara nestes versos...

É assim que eles nos roubam, Otto

Distraídos, rimam, versam, nos hipnopoetizam

Poetas... roubam