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sábado, 23 de dezembro de 2023

Paloma ruiva


_em algumas línguas te chamam Paloma
ave urbana, marginalizada, 
outrora símbolo da paz, da esperança

_mas teu olhar ruivo reluz
Me convida e me repele a um só tempo
Desafio afetivo a me provocar
Paz - aqui não há
a não ser quando te chamam pomba

Paloma...

_Voar no teu céu 
deve ser como viver acima das nuvens e dos medos
Voar nesse teu céu
Morrer como teu segredo

_corpo voraz
Serpente
De repente, serpentinas
a devorar a ave que voa e inocente se aproxima
Doce impulso suicida
Fascinada pelo teu sorriso
teus encantos
Um abismo de cachos nesses teus cabelos

_Paloma
ave que revoa
em meio a noite, iluminada
Feito fogo
Fagulha vermelha
Cabelos revoltos
Ave embrasada

_quem me dera poder pousar em tuas asas
em teus ombros
em teu pescoço
ou no teu colo
E te olhar como quem encara um espelho d'água misterioso
profundo

_ave
Eva
Voa
E me leva
para dentro de ti
Esse meu ser que nada tem a lhe oferecer
a não ser sacrifício e devoção
loucura e desejo

_leve ave que voa e me leva
contigo
pra dentro de ti
onde for












quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Silêncio


O que me resta
é me contentar com a ambiguidade do seu silêncio,
das suas poucas palavras
Logo eu, que me achava tão lacônico, soturno

A desilusão
é saber que o seu silêncio é só isso:
não a ausência óbvia de palavras,
mas tão somente silêncio,
sem camadas de sentidos ocultos,
sem sombras metaforizadas,
sem entrelinhas enviesadas

Talvez até seja o signo ainda incompreendido, por mim,
de um sentimento mais ameno ou até mesmo mais amargo

Você bem me conhece, sabe o quanto é inevitável
essas minhas armadilhas verbais, essas divagações

Eu levanto os olhos do papel onde escrevo
(outra mentira: escrevo direto na tela do celular ou do computador)
e procuro seu rosto, uma imagem sua, uma lembrança...
Mas o silêncio (de novo ele), o silêncio é como uma assombração
presente em  cada recanto de uma casa onde você nunca esteve
Isso me provoca delírios, e fico cheio de esperanças

No entanto, sei que estou sombrio, e que a doença é mais que um simples e pretensioso verso

Tudo bem, não precisa dizer nada
(como se eu conseguisse fazer você falar, ou como se eu merecesse ter em meus ouvidos sua voz a me dizer qualquer coisa)

Ainda estou absorto nesse exílio de mudez e palavras - seu olhar

II

Vou fazer desse seu silêncio algo que eu não soube ou não fui capaz de fazer de mim                                                                                                                                      [mesmo
de nós:
um ponto singular no Universo
onde não há nada de mais
do que a latente possibilidade
de uma voz se expandir
e (me) dizer
oi
ou dessa mesma voz
se contrair
e apenas (me) sorrir
um sorriso mudo
sincero
um apelo carinhoso
de que eu não diga mais nada
e fique quieto
a ouvir esse silêncio que há em mim
e que é você
a sua voz
eu sei

No
ar
partículas imóveis
mas eu sei
posso ouvir
você
aqui

comigo