Passei a máquina de escrever para o outro quarto,
onde posso me ver no espelho enquanto escrevo.
Henry Miller, in O Boxeador Polaco, de Eduardo Halfon
acabo de desperdiçar folhas de papel
todas amassadas e sem nenhuma palavra
apenas um vício pegajoso
de cheiro forte
quanto desperdício
frases não escritas
imagens não evocadas
pilhas de folhas brancas amassadas
com rascunhos de seres de cabeça
e cauda
rumo ao mundo sem futuro
mais uma poesia perdida
no fundo, não queria dizer nada mesmo
quanta ironia!
ou autopiedade?
em compor poemas para logo em seguida maldizê-los
- ao menos limpa essa baba do canto da boca. Senta e escreve.
Pois as palavras... estas, sim, são teu vício pegajoso.
Elas te submetem, lacônico
e de nada valem os esquivos e os subterfúgios
e as artimanhas
contra os versos.
Nesta luta injusta, em que está prostrado,
as tuas mãos
cavam o teu abismo sob teus olhos
a refletirem tua deprimente imagem
nas janelas escuras
do teu quarto
enquanto escreves para esquecer como se escreve
um poema sem pautas
patético périplo estético
poeta
nu
no espelho
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