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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Poema Fraternal

À memória de meu irmão Flavio

Só depois de um tempo
é que percebo que tudo foi um sonho

Eu e você a correr no meio da rua
a fazer algo que nunca fizemos juntos –
empinar pipa
Você me sorri
enquanto me vê correr
tentando colocar uma rabiola
numa pipa que voa baixo e que não sabemos de quem seja
Um carro passa – um susto -, quase me atropela
Você joga seu chinelo contra o carro
que segue rápido e some numa curva invisível
Nós dois sorrimos
Como é possível se a rua é reta?
Sorrimos e nos divertimos
Não percebo que só pode ser um sonho
Na vida real, enquanto você era vivo
não tenho lembranças de nós dois assim juntos
correndo, felizes, sorrindo

(Me lembro apenas de que, como uma mãe perdida em zelos, eu tinha um medo danado de que você nunca aprendesse a jogar bola e que, com isso, sofresse nas mãos dos outros garotos)

Quando dou por mim
estou no banheiro diante do espelho
É madrugada, acho
Tenho os olhos cheios de lágrimas
(você me sorria...)
Tudo, meu irmão, foi um sonho
apenas um sonho

O reflexo no espelho

é você, meu irmão
morto

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O Poeta no Espelho

Passei a máquina de escrever para o outro quarto,
onde posso me ver no espelho enquanto escrevo. 
Henry Miller, in O Boxeador Polaco, de Eduardo Halfon

acabo de desperdiçar folhas de papel
todas amassadas e sem nenhuma palavra
apenas um vício pegajoso
de cheiro forte

quanto desperdício
frases não escritas
imagens não evocadas

pilhas de folhas brancas amassadas 
com rascunhos de seres de cabeça e cauda

rumo ao mundo sem futuro
mais uma poesia perdida
no fundo, não queria dizer nada mesmo
quanta ironia!
ou autopiedade?
em compor poemas para logo em seguida maldizê-los

- ao menos limpa essa baba do canto da boca. Senta e escreve. Pois as palavras... estas, sim, são teu vício pegajoso.
Elas te submetem, lacônico
e de nada valem os esquivos e os subterfúgios 
e as artimanhas contra os versos.
Nesta luta injusta, em que está prostrado, 
as tuas mãos cavam o teu abismo sob teus olhos
a refletirem tua deprimente imagem 
nas janelas escuras
do teu quarto

enquanto escreves para esquecer como se escreve
um poema sem pautas
patético périplo estético
poeta
nu
no espelho

quarta-feira, 9 de julho de 2014

TRILOGIA NARCISO

Parte I

A Contemplação de Si Mesmo

Vislumbro entre as águas claras
e ondeantes desse mar espelhado
um rosto, um rosto tão lindo:
olhos fundos, lúbricos, órbitas lívidas, negras
a tez vermelha como telúrico barro
a testa lustrosa
o maxilar arrendondado, perfeito
uma penugem rara
um buço incipiente
as sobrancelhas curvadas
sobre cada forma do olhar
os cílios – um véu de filamentos
negros e grandes
o nariz afilado
de narinas levemente dilatadas
os lábios pequenos e serenos
contornando a boca maliciosa
E a expressão tão fascinante
alucinada
esboçando seu silêncio...


(Ah, como é doce esse contemplar! Não preciso de mais nada. Só quero passar a eternidade presente contemplando minha face nesse espelho d'água)

Parte II

A Metamorfose

Minha cabeça feneceu sobre a terra
e minhas mãos e meus pés
sulcaram o solo
e se enraizaram nele
Meus cabelos mergulharam em sulcos de barro
e medraram úmidos e viçosos
Todo meu corpo
consumido com ferocidade
pela Natureza onívora
desabrochou na estação primeva
E hoje meu ser exala essências
coloridas, extasiantes -
bálsamos dum perfume enegrecido
E todos me conhecem pelo nome
             de Flor-Narciso

Parte III

Vi meu amável rosto
             em chamas
             em labaredas
sendo forjado pelo fogo infame
             da tristeza

            Soltei um grito...

Acordei sobressaltado
ansioso por ver minha face
em qualquer reflexo
do meu sombrio quarto

Vi num espelho invertido
no teto escabroso e alto
minha imagem possessa estertorando
gargalhadas de “Maldito! Maldito!”

Apalpei com desespero
meu intangível rosto
Quando dei por mim
já estava torto
pela fealdade severa
daquele fogo fátuo...