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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Poema Fraternal

À memória de meu irmão Flavio

Só depois de um tempo
é que percebo que tudo foi um sonho

Eu e você a correr no meio da rua
a fazer algo que nunca fizemos juntos –
empinar pipa
Você me sorri
enquanto me vê correr
tentando colocar uma rabiola
numa pipa que voa baixo e que não sabemos de quem seja
Um carro passa – um susto -, quase me atropela
Você joga seu chinelo contra o carro
que segue rápido e some numa curva invisível
Nós dois sorrimos
Como é possível se a rua é reta?
Sorrimos e nos divertimos
Não percebo que só pode ser um sonho
Na vida real, enquanto você era vivo
não tenho lembranças de nós dois assim juntos
correndo, felizes, sorrindo

(Me lembro apenas de que, como uma mãe perdida em zelos, eu tinha um medo danado de que você nunca aprendesse a jogar bola e que, com isso, sofresse nas mãos dos outros garotos)

Quando dou por mim
estou no banheiro diante do espelho
É madrugada, acho
Tenho os olhos cheios de lágrimas
(você me sorria...)
Tudo, meu irmão, foi um sonho
apenas um sonho

O reflexo no espelho

é você, meu irmão
morto

terça-feira, 26 de agosto de 2014

ESCRITOS PANFLETÁRIOS

O Novo Sonho

Hoje é o dia pra sonhar/ Não levanta da sua cama/ não levante do chão/ Fique onde está/ Porque hoje é o dia feito sonho/ Hoje é o dia pra sonhar

Arranhe as janelas de vidro/ com suas unhas de metal/ Feche os céus lá fora/ Cubra todos os móveis/ com cortinas de nuvens/ Coma as flores e os objetos/ Encoste a cabeça no solo/ e sinta o palpitar dos ruídos/ vindos das ruas/ vindos de longe/ vindos de perto/ vindos dos sonhos

Hoje o dia não vai ser tão-lindo/ Hoje é o dia pra sonhar/ Sonhar com uma madrugada vermelha/ com os olhos brancos/ corpos verdes/ mãos azuis/ e sentimentos amarelos

Não... não levante sua cabeça/ pra tentar ver o que não se passa lá fora/ Presta atenção no que lhe acontece aí dentro/ É, aí mesmo: nos seus sonhos/ Hoje é o dia feito pra nascer

Recolha suas roupas/ seus filhos/ amigos/ vizinhos/ desconhecidos/ seus chinelos/ Deite-se e deixe todos ao seu redor/ Corta fora todas as vozes/ todos os passos/ todos os panos/ E lhes conte que hoje, sim, é o dia da Grande Criação – da criação de um novo Sonho/ E lhes mostre que ainda se pode sonhar, ainda/ Mas não lhes diga absurdos de monstros, seres e mundos extraterrenos/ Diga-lhes que o fantástico, hoje, é construir – em sonho – um mundo novo


E só vá dormir o seu sono/ quando todos estiverem dormindo profundamente/ e sonhando com leveza/ o novo dia... O novo dia que será anunciado – por todos e a todos – sobre o despertar do novo sonho

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Insônia Onírica


Deito às 22h33. E acordo às 08h27. Nem todo dia, mas geralmente. Apesar disso, tenho dormido pouco. Dormido mal. Até deito e durmo e só acordo noutro dia. Mas acordo com sono, acordo cansado. Tenho sonhado muito, e durante os sonhos percebo que estou sonhando. Então estou acordado, o tempo todo, numa espécie de insônia onírica. Durmo um sono insone. Acordo, e sinto que não dormi. Sonho, logo me vejo. Em sonho. Não durmo. Malsonho. E me vejo neles. Sei que estou sonhando. E no dia seguinte desperto com dor de cabeça e irritado.

Não dormi. Sonhei. Acordado. Sempre desperto. Numa vigília infernal.

Queria dormir e não sonhar. Ou ao menos sonhar e não saber que estou dormindo.

As pessoas nos meus sonhos, elas não têm rosto. Mesmo assim, sei quem elas são. Imagino. Até mesmo as que desconheço. Tudo em preto-e-branco. As imagens. O sonho. Em escala cinzenta, meio desfocado. Amorfo. Sem foco. Sem forma.

Nem pessoas, nem outros seres ou imagens. Quando malsonho, são “coisas” informes. Palavras. Apenas evocam pessoas, lugares, acontecimentos... uma infinidade de artigos e repertórios oníricos. E eu sempre no meio. Sendo sonhador e sonho ao mesmo tempo.

Malsonho que estou morrendo. Não sei exatamente como mas vai caindo em cima de mim, me apertando, me esmagando. Cada vez mais. Impiedosamente. Estou morrendo esmagado, sufocado, quebrado, comprimido. Morto. Droga! Mesmo ciente de que é apenas um sonho, isso dói. Assusta. A morte que sonha com a gente. E amedronta.

A Morte sonha comigo. Eu tento fugir. Escapar. Acordo assustado. Respirando com esforço. Tentando me acalmar. Malsonho que ela sonha comigo. Não. De novo não. Quero sonhar sem estar desperto.

Me cubro. Me escondo. De quem? Se tudo escuro. Silêncio. Apreensão. Estou sendo perseguido. Mas por quem? No mar, na cama, num pântano. De algas cinéreas. No fundo, um mergulho, centopeias de fogo. Então corro. Frenéticas.

Acordo. Não durmo, se sonho.
Palavras – imagens – sinais – anônimos
Levanto. Não caio. Ando por um solo movediço. Violeta. No sonho o escuro é violáceo. Em escala cinza. Escorregadio. Difícil de se manter em pé.

Espera! Não sinto. Não vejo. Será que durmo sem saber que durmo? Ou sonho sem saber que sou sonhado?

Acordo. Não digo.
As palavras
Se dormi – sonhei
não sei
talvez

Malsonho do mundo
e a luz eternamente apagada