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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Poema Fraternal

À memória de meu irmão Flavio

Só depois de um tempo
é que percebo que tudo foi um sonho

Eu e você a correr no meio da rua
a fazer algo que nunca fizemos juntos –
empinar pipa
Você me sorri
enquanto me vê correr
tentando colocar uma rabiola
numa pipa que voa baixo e que não sabemos de quem seja
Um carro passa – um susto -, quase me atropela
Você joga seu chinelo contra o carro
que segue rápido e some numa curva invisível
Nós dois sorrimos
Como é possível se a rua é reta?
Sorrimos e nos divertimos
Não percebo que só pode ser um sonho
Na vida real, enquanto você era vivo
não tenho lembranças de nós dois assim juntos
correndo, felizes, sorrindo

(Me lembro apenas de que, como uma mãe perdida em zelos, eu tinha um medo danado de que você nunca aprendesse a jogar bola e que, com isso, sofresse nas mãos dos outros garotos)

Quando dou por mim
estou no banheiro diante do espelho
É madrugada, acho
Tenho os olhos cheios de lágrimas
(você me sorria...)
Tudo, meu irmão, foi um sonho
apenas um sonho

O reflexo no espelho

é você, meu irmão
morto

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O Mistério de Elimar

Elimar era um ser ENORME, muito mas muito GRANDE.

Tinha uns olhos profundos, vagas, vagos.

A gente nem sabia ao certo se Elimar era ele ou ela.

E isso aumentava inda mais nossa curiosidade.

Elimar às vezes passava pela gente e parecia que ia levar a gente junto. Era incrível!

Arrastava e devastava tudo com uma força fantástica. De tão emocionante chegava dar um pontinha de medo.

Eu e os outros queríamos nos aproximar d'Elimar mas não sabíamos como.

Os mais velhos viviam discutindo possíveis histórias sobre Elimar. Uns diziam que Elimar já tinha matado muito gente. Outros, que Elimar já tinha levado muita gente pra bem longe.

Tinha também aqueles que diziam que Elimar era culpado por muitas saudades e histórias corajosas.

De navegantes, guerras, donzelas, piratas, marinheiros, descobrimentos....

A gente ficava na dúvida, impressionados com tantas histórias fabulosas. Pensávamos e pensávamos, tanto e tanto, que a gente ficava tonto.

Ficar olhando pra Elimar, assim, durante muito tempo, meio que perdido, esquecido de tudo, enfeitiçado por aqueles olhos imensos, infinitos de se perder no horizonte... também deixava qualquer um tonto de zonzo.

Só que também se sentia uma calma danada se um olhasse pra Elimar quando estava tudo sereno, manhecido. Tão bom!

Tinha vontade de mergulhar em Elimar, me aprofundar pra sempre.

Igual àqueles seres que viviam dentro d'Elimar, nadando no seu corpo oceânico, marinho.

- Aquário móvel de amplidão!

Mais tarde, vamos reunir o pessoal pra contar mais histórias. Eu já escolhi a minha: vou dizer um poema – o poema Mistério de Elimar.

O mar tá de ressaca. E os pescadores vão ter que esperar.


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

24 HORAS - PARTE II


Ela volta a prestar atenção na aula. O professor continua falando sobre as borboletas. Sobre o longo tempo entre o primeiro e o segundo estágios necessários para que a borboleta se transforme no que é. Depois, ela vive vinte 24 horas, um dia, e morre, quem sabe se perguntando se ela viveria por mais longos anos...

“Só que esse questionamento sobre a brevidade da existência é coisa da nossa espécie humana. Não se iludam quanto a isso, ok?”

“Coisa da nossa espécie...?”, Clarice pergunta com voz tão baixa que ninguém escuta. Mas sua intenção era essa mesma, que ninguém escutasse, porque, de alguma forma, Clarice sabe que ninguém saberá ao certo responder a essa pergunta.

Um pouco triste, ela folheia o livro de Biologia e vai se alegrando aos poucos, conforme vê a diversidade de cores e formas das borboletas. Umas têm asas tão coloridas e com desenhos enigmáticos. Outras parecem ter olhos bem grandes e negros contornados por um azul fraquinho nas asas. Asas abertas, estas parecem dois olhos enormes. E quando a borboleta bate as asas deve parecer olhos piscando. “Assim:...”

Clarice fecha os olhos e quando os abre novamente, ela já está em casa. Deitada. O dia já passou. O Sol já se foi. Borboletas nasceram, cresceram e morreram. Antes, voaram e voaram muito por aí, pelos ares, pelo céu. Entrando em flores e sugando néctar. Arranjando pares. Fugindo de caçadores. Se aventurando, vivendo e... finalmente, morrendo.

“Elas têm sangue? Será que sabem quando estão morrendo? Se não, como explicar essa pressa em viver e fazer tantas coisas...?”

A menina sente algo frio, muito frio, vindo lá de dentro dela, bem do fundo do seu ser. Fica quieta, parada, apreensiva. Sente algo escorrendo entre suas pernas. É algo líquido. É gelado, muito gelado. É vermelho. O chão fica tingindo de vermelho como o céu quando está no fim de tarde. Clarice tem vontade chorar, de gritar, de pedir socorro. Mas sabe que não há dor, só sofrimento, e ela completamente só no seu quarto.
Ela se levanta, vai até a janela. Abre. E os raios de Sol invadem o seu quarto numa explosão amarela e quente. Clarice sorri, cega de luz. Bate os braços como se fossem asas e pousa na cama como se fosse uma borboleta despertando para o instante eterno e perfeito que só durará 24 horas.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

IDIOT WIND


 (inspirado na canção homônima de Bob Dylan, álbum Blood on the tracks)


            E o vento estúpido
sopra minha voz
pra longe de mim

            E quem vai querer ouvir
essa voz rouca
            e fraca
arrastada pelo vento estúpido
feito folha seca fora de rumo

            E o vento estúpido
sopra meu canto
pra longe de mim
mas entre as árvores altas
            e o estalar dos galhos
que se quebram
posso ouvir o Silêncio
            ecoando dentro de mim

            E quem vai querer ouvir
essa voz vagando por aí

            O vento estúpido
arrasta a folha seca
            da árvore
            a folha seca
em branco
            do caderno
faz tombar a garrafa vazia
            e a alegria embriagada
            e a cabeça do homem
sentado na janela

            E ele sente o vento estúpido
que sopra
sempre forte
            cada vez mais
            como se o mundo
            as pessoas
fossem frágeis gravetos
prestes a quebrar

            E quem vai querer ouvir
essa voz
rouca e fraca
            arrastada pelo vento estúpido
            E quem vai querer ouvir
                        uma voz
                        um lamento
de mais um prestes a cair

            E o vento estúpido
(que tudo ignora)
            sopra meu canto
pra longe de mim

            E de boca aberta
prestes a cair
(pela última vez)
um vento estúpido
            sai dos meus lábios
... pela última vez

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

CHÁ DE POEJO

“Sente-se e beba chá de poejo
Destile a vida que está dentro de mim”
Pennyroyal Tea, Nirvana

O hálito quente de chá de poejo. A tosse seca. Não curou o chiado do peito. Nem amenizou a pressão. O aroma da erva. Daqui – à janela do sétimo andar. A luz desperdiçando o sol da manhã.  Sua imagem. No outdoor com moldura de madeira fina. “Informe publicitário: O direito à vida é inalienável”. Difícil mesmo foi ter que te levar naquele lugar. Bairro decente de subúrbio, desses em que o silêncio das ruas abafa os gritos de dor dos seus moradores. Não fosse a indicação exata da amiga, como acharíamos. Como é mesmo que se diz? Pensei num cartaz, um projeto gráfico. Sua expressão melancólica ampliada desproporcionalmente num zoom antirromântico. A pele rugosa das imperfeições do grude. Usaram rolos e baldes pra montar seu ideogramafacial.  Nesse porta-retratos de autoestrada. Na frente do prédio. Atrás do mar. Anunciando você. Perdeu-se de mim. “Paga-se bem por qualquer informação que possa...” Se publicar? Com essa nova Lei, quem sabe ninguém nem veja. Logo ao fundo é possível ver o esqueleto inerte de mais um prédio em construção. Seus olhos fugitivos de mim, em ângulo desfavorável à vista. Podia ligar na agência e reclamar e pedir meu dinheiro de volta. Esses moleques coladores. Rugas e estrias. Colagem mais malfeita. O espaço quase imperceptível no canto dos olhos. A impressão de quem desvia o olhar. Ao longe, na paisagem desconforme, a borra do chá no fundo do bule, no fundo da calcinha. Chá. Chão. Xá de alumínio. Chicára de porcelana. O contorno do copo pura poeira. O colchão no assoalho. Deitado com a máquina no tripé desnivelado. Seu olhar em foco. Descarregada. Sem click. Da lente fotográfica, olho no olho. Meu olho na lente dentro do seu olho. Se chover, ventar forte demais por muito tempo, sua pele de papel pode se desfazer. Feito feto escorrendo pelas pernas. Que loucura pensar nisso logo agora. Seu rosto pálido. Envelhecido. Reflexo mudo na parede do banheiro. Olhos lacrimejando. Xá-preto com coca. Para acompanhar, biscoitos placebos. Nosso filho perdido. Nos postes perto da clínica, restos de panfletos com palavras de protestos. Direito à vida... Fetos... Vidas... Merecem nascer... Amor materno. Secreto. Quem sabe, um diário escolar maldizendo os pais em garranchos revoltosos, nos acusando por tê-lo colocado nesse mundo contra sua vontade. Espermas também têm direito aos direitos humanos. Consciência insciente, rebelde. Fixei você num outdoor. Out dor. Infusão uterina. Chá-de-bebê. Noves meses sem encontrar você. “... não tem preço...”, dizeres de um anúncio na rádio. Pra te procurar daqui. De máquina na mão. Janela do Sétimo Andar. Tão estático como água fundida no solo. In útero inchado. Saquinhos de choro. Consolo. Sem ninguém pra adular. O que eu quis foi te proteger. Risco de deixar você sozinha. Naquele estado. Não tinha como a gente saber. Seguir a tabela. Em letras minúsculas: não contém glúten nem gordura trans. Reações adversas: efeito abortivo em ingestão com coca. Gestação. Quem diria que um simples costume milenar poderia afetar um feto. Água barrenta. Sem afeto. Um girino a coachar no bulebrejo. COAR-CHÁ! COAR-CHÁ! O choro agudo e insistente. Num cesto. A sair do útero para um cesto de lixo. O céu sem nuvens. Chárope expectorante. Antibiótico faz acelerar o coração. Já o tempo. Quando chegarem, encontrarão um recado sem assinatura no espelho pregado logo acima da pia do banheiro. Apaguem as luzes pra não ter que verem dentro da privada pedaços amorfos se desfazendo líquidos, vermelhos, lamacentos. Limpem o cinzeiro cheio de parafina e incenso. Cubram os pequeninos restos mortais em plástico bolha. Eu vou ficar. Até permanecer longamente... até que substituam sua imagem-cartaz por um anúncio qualquer de empreendimento domiciliar com uma família feliz. Casas. Apartamentos. Filhos. Apartar do peito os sofrimentos. Ir atrás de você escorrendo com nosso filho pelo ralo. Vai fugir de mim? Água fria, bolacha murcha. Melhor deixar a mesa pronta caso você resolva voltar hoje à noite, ou quem sabe amanhã enquanto durmo. Sem sonhar. Vejo tudo. Da janela, do sétimo andar, eles me acenam lá de baixo. Estão me chamando. Parecem feliz. 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

ANSEIO SUICÍDA

Desde a tardia adolescência
quando senti pela primeira vez
            a perda
um pensamento se apoderou de mim
recôndito 
            em minha cabeça

Um pensamento mórbido, obsessivo
por vezes passageiro
por outras, impreciso
Um pensamento tal dum extremo teor
                 corrosivo

Estranhamente libertador

Mário Sá-Carneiro quem o diga
já que sempre se mostrou
atormentado por essa ideia
de total aniquilação do ser

Minha língua até vacila
Chego mesmo a estremecer
como se em palavras se concretizasse
esse anseio maldito
cínico sem humor
de que só mesmo a Morte

de matar-se tem valor

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A MÃE DA PATROA

Ela morreu nos meus braços. Os últimos suspiros de vida. De repente sossegou completamente. E adormeceu no seu sono profundo como uma criança, um bebê no conforto do embalo materno. Eu - a empregada da casa. Há dez anos já. Já tinha me apegado a ela. Muito mesmo até. Às vezes era difícil ver ela à beira da janela do apartamento, olhando longe, talvez em busca dum passado que fica a brilhar no horizonte como uma estrela que já viveu, que já existiu, mas que agora é só isso – um raio de luz bem distante da gente, do nosso céu. O que a senhora tá olhando, posso saber? Tá de olho em alguém? – eu brincava com ela. Ela então meio que despertava: Hãn? Não, não, minha filha. Falava doce. Tô só olhando. Chega uma época na nossa vida que a gente se sente assim, que só pode olhar... observar as coisas do mundo acontecendo, sem você, independente de você. Mas não é tristeza não, esse sentimento. É mais como quando se está diante de algo bem bonito e você sabe que dificilmente terá este algo só pra você, em suas mãos. É até bonito. É um sentimento de beleza, de contemplação... Aí ela parava, me olhava com um ar doce, calmo. Sempre serena. Saía, sem dizer mais nada, passando a mão pelo meu ombro, como se através daquele gesto tão simples pudesse ou quisesse me transmitir todo o seu conhecimento, a sua experiência, 97 anos de vida vividos. Muito tempo! Mesmo eu tendo apenas 39, já achava que tinha vivido muito. Me lembro que quando eu era bem mais nova, com uns 10 anos, ou com 18, sempre achava que já tinha vivido muito, que já sabia muito, que já não tinha mais nada pra viver, que já bastava. A minha patroa, a Dona Neusa, dizia que a gente na velhice parecia que desaprendia as coisas que tínhamos aprendido. Falava isso sempre que a mãe dela, a Dona Ildinha, cagava na roupa e saía pela casa, espalhando cocô caduco e fedorento. Cocô de gente velha fede muito. É igual à de bebezinho, só que mais nojento. Eu chegava e via D. Neusa possessa, gritando com D. Ildinha. Eu ia, pegava a velha e levava pra limpar, pra dar banho. Ela paciente, normal. Dava banho nela e depois ia limpar toda a merda espelhada pela casa. Um horror!, D. Neusa ficava exclamando, se lamentando. A mãe naquele estado. Acho que ela ficava com vergonha de mim. Num sei. É uma boa mulher. Uma boa patroa. Menos quando o assunto é aumento de salário. Mas tudo bem. Ela resiste um pouco, acho que só pra mostrar firmeza pro marido, pra não demonstrar tanta simpatia com os empregados da casa, comigo. Mas depois ela cede, convencida de que não arranjará outra pessoa de confiança, competente, pra trabalhar pra ela. Quando D. Ildinha morreu nos meus braços, ela, D. Neusa, me deu a corrente que a mãe dela usava. Me disse, pega pra você, Juliana. Você era mais íntima da minha mãe do que eu. Ela gostava muito de você. Te adorava... – eu, com lágrimas nos olhos... – mesmo que nesses seus dez anos de casa ela nunca tenha te chamado pelo seu nome (sorrio) você sabe, ela tinha muita estima por você. Adorava quando você chegava. Acho que ela não se sentia mais tão sozinha. Alguém com paciência pra conversar com ela, pra arrumar a bagunça que ela fazia... Hã, era mesmo! D. Ildinha nunca me chamou pelo meu nome. Todas as vezes que eu chegava e ela tava na sala, ia logo me dizendo, Bom Dia Márcia! Outro dia, Bom Dia Maria Célia! Bom Dia Luzia! A cada dia, um novo nome, mas que sempre se repetiam semana após semana. Perguntei pra minha patroa se ela sabia de onde a mãe dela tirava aqueles nomes. Ela não sabia. Desconfiava que talvez fosse de velhas amigas da mãe ou pura caduquice. Um dia eu disse pra D. Ildinha, a senhora sabe que esse não é o meu nome. Ela respondeu, carinhosa, não importa muito o nome da gente, sabe filha? Pras outras pessoas, a gente sempre é alguém que nós mesmos desconhecemos. A gente tem um nome, mas a verdade é que a gente se desconhece. Ninguém conhece ninguém. A gente mantém contatos mas nunca nos descobriremos. O abismo que há entre mim e você, entre nós e os outros, entre nós mesmos... é nesse abismo, filha, que está o que somos e não sabemos. Apesar de não entender muito o que ela queria dizer, eu sempre escutava, atenta, achando graça nas palavras dela, nas ideias. Era tão bom conversar com ela. Até mesmo quando ela cagava no chão da sala e ficava lá, à beira do próprio cocô, observando, observando. Não tinha quem tirasse ela de lá. Eu chegava de mansinho. Quê que a senhora tá fazendo aí? Ela chiava, XIUUUU! Silêncio. D. Ildinha... Mas será que nem uma pessoa da minha idade pode se examinar nas coisas que faz, nas coisas que come e que depois caga, sangra, expele...? Ei, filha, vem cá. Tá vendo esse monte de bosta? Ele também faz parte de mim, eu também sou ele. E, agora, que ele não tá mais em mim, e é uma parte minha, agora eu posso ver, conhecer algo de mim mesma que eu desconhecia. Entenda filha, nós também somos aquilo que comemos e que corre nas nossas veias, no nosso sangue, no nosso organismo, e também somos aquilo que cagamos, que cuspimos, que mijamos... que sai da gente. Ela levantava e saía andando. Eu continuava lá, confusa, achando pena e graça ao mesmo tempo, diante da merda. Na ocasião que ela morreu, dando seus últimos suspiros nos meus braços, a respiração cessando aos poucos, ela nem se retorceu, nem cagou. Eu fiquei alisando os cabelo dela. Aqueles fiozinhos tão finos, grisalhos, alguns cor de ferrugem. Ela gostava quando eu ficava horas e horas alisando o seu cabelo. Parecíamos mãe e filha, assim como quando ela adormeceu pra sempre no meu colo, nos meus braços, feito um bebê que no colo da mãe parece sentir um cheiro fortíssimo mistura de leveza e paz, realidade e sonho.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

NASCER DO DIA À LUZ DE VELA

Você hoje tá mais calada. Nunca foi assim. Sempre depois que transávamos você começava a falar e a falar e a rir por horas inteiras. Se lembra, às vezes eu até dormia e quando acordava lá estava você, me olhando e falando comigo como se eu estivesse acordado ou então de olhos fechados te escutando? Aí de repente você parava, me olhava sorrindo e dizia simplesmente: “por que você num fala nada... num fala nunca? Tem medo que eu use suas palavras contra você? Não se preocupe, jamais faria isso. É que gosto das palavras, dos sons delas, do movimento dos nossos lábios e de toda articulação do nosso corpo que elas provocam e exigem quando falamos. Uma vez uma mulher com quem dormi – ela era professora de Literatura – me disse que toda essa minha conversa sobre as palavras era coisa de poeta. Poetisa. Poesia. Num sei, sabe? Gosto das palavras pelas palavras.” E você finalmente silenciava. Com aqueles seus olhos miúdos em cima de mim. Esperando alguma palavra minha. Alguma frase, como agora estou fazendo contigo. Eu nunca falava. Hoje, você não diz. Mas sabe por quê eu num dizia nada? Porque sempre achei desnecessário, meio inútil... Falar... Usar as palavras era sempre isso pra mim: dizer uma coisa que não era exatamente o que você queria dizer e que, ainda por cima, a outra pessoa entendia uma coisa que nem era o que você realmente queira falar nem o que as palavras usadas deram a entender. Num sei se fui claro. Mas a comunicação é confusa, é precária. Só o silêncio cria uma relação entre nós que não é nem cumplicidade nem indiferença. É como nós dois agora, eu falando e você aí calada, mas não porque não entenda o que eu digo ou não se interessasse. Mas simplesmente porque estamos num mesmo lugar vivendo experiências completamente diferentes. Eu, vivo, do seu lado, divagando. Você quieta e muda, no seu canto. Morta... Morta. Minha morta. Tua morte. Nossa morte... A morte é um mistério, hein, me diz, é um mistério? Pelo seu silêncio tão calmo, me parece mais que a morte é como a vida, exatamente igual só que pelo avesso: nem precisa ser dita. Basta estar aqui pra viver. A gente existe – a vida em nós. A morte (in)existe na vida em nós. Você, morta, existe na minha vida. Eu, vivo, (in)existo na sua morte. Uma existência estimulando a outra. Exterminando a outra. O meu prazer o seu silêncio. O seu silêncio o meu prazer. Nós dois aqui, eu vivo você morta – vida e morte lado a lado, uma revestindo a outra, depois do sexo, depois do amor. Amor, morte... O seu corpo frio, roxo. As nossas roupas jogadas no chão. Num sei por quê falo tudo isso. Eu sei, eu sei. Num precisa me olhar assim, de olhos estáticos. Sei que na verdade estou pensando tudo isso. Mas diz, o que as palavras do pensamento também não omitem? O que elas também não podem dizer com clareza e exatidão? Clareza... Clara o dia... Claridade. Mas também, o que a luz esconde quando somente a escuridão revela? É, eu sei. Melhor apagar as luzes. O dia vem surgindo entre as brechas da janela. Os raios de sol – uma multidão que nos espia. Melhor apagar a luz, puxar as cortinas da janela. Deitar ao teu lado. Me aquecer em ti. E velar o teu corpo... ainda meu corpo... à luz de vela.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

...SECRETO DO TEMPO

Deitei-me com sombras tão álgidas em uma noite de festas e fogos multicores e insonoros

Suas mãos sombreadas pelo ardor do meu rosto me afagaram com dureza e ternura

Envolveram-me os ossos cinzentos fazendo-os estalarem como beijos de lábios trincados

Sussurram-me ruídos agudos em meus ouvidos cheios de sangue noite e de luz

Despiram-me com amorosidade e untaram meu corpo com trevas luminosas solidão e
                                                                                           [alegrias intempestivas

Tocaram-me com trêmula delicadeza Cortando-me os cílios e os medos
                                                   [E me inclinaram sobre mim mesmo
feito um túmulo celeste de flores amaldiçoadas


E só então pude dormir o sono profundo secreto do tempo