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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O Mistério de Elimar

Elimar era um ser ENORME, muito mas muito GRANDE.

Tinha uns olhos profundos, vagas, vagos.

A gente nem sabia ao certo se Elimar era ele ou ela.

E isso aumentava inda mais nossa curiosidade.

Elimar às vezes passava pela gente e parecia que ia levar a gente junto. Era incrível!

Arrastava e devastava tudo com uma força fantástica. De tão emocionante chegava dar um pontinha de medo.

Eu e os outros queríamos nos aproximar d'Elimar mas não sabíamos como.

Os mais velhos viviam discutindo possíveis histórias sobre Elimar. Uns diziam que Elimar já tinha matado muito gente. Outros, que Elimar já tinha levado muita gente pra bem longe.

Tinha também aqueles que diziam que Elimar era culpado por muitas saudades e histórias corajosas.

De navegantes, guerras, donzelas, piratas, marinheiros, descobrimentos....

A gente ficava na dúvida, impressionados com tantas histórias fabulosas. Pensávamos e pensávamos, tanto e tanto, que a gente ficava tonto.

Ficar olhando pra Elimar, assim, durante muito tempo, meio que perdido, esquecido de tudo, enfeitiçado por aqueles olhos imensos, infinitos de se perder no horizonte... também deixava qualquer um tonto de zonzo.

Só que também se sentia uma calma danada se um olhasse pra Elimar quando estava tudo sereno, manhecido. Tão bom!

Tinha vontade de mergulhar em Elimar, me aprofundar pra sempre.

Igual àqueles seres que viviam dentro d'Elimar, nadando no seu corpo oceânico, marinho.

- Aquário móvel de amplidão!

Mais tarde, vamos reunir o pessoal pra contar mais histórias. Eu já escolhi a minha: vou dizer um poema – o poema Mistério de Elimar.

O mar tá de ressaca. E os pescadores vão ter que esperar.


terça-feira, 2 de setembro de 2014

TERRA DE HIPÓCRITAS

A Lua finge iluminar a Terra
O Sol finge aquecer a Terra
    A terra finge que é Terra

A água finge saciar toda a sede da Terra
Os políticos fingem administrar a terra
O povo finge ser feliz
e acreditar no progresso da terra
A Terra finge progredir
    A Terra finge que é terra

Os Impérios democráticos
fingem levar a democracia para a terra
A ONU finge tentar impedir os Impérios
de quererem dominar toda a terra
    A Terra finge que é Terra

A juventude finge ser o futuro da terra
A terra finge dar frutos para a Terra
O Homem finge que a Terra
é a terra que ele quer
A terra finge que é terra

    E tudo finge ser o que (não) é

sexta-feira, 18 de julho de 2014

ANSEIO SUICÍDA

Desde a tardia adolescência
quando senti pela primeira vez
            a perda
um pensamento se apoderou de mim
recôndito 
            em minha cabeça

Um pensamento mórbido, obsessivo
por vezes passageiro
por outras, impreciso
Um pensamento tal dum extremo teor
                 corrosivo

Estranhamente libertador

Mário Sá-Carneiro quem o diga
já que sempre se mostrou
atormentado por essa ideia
de total aniquilação do ser

Minha língua até vacila
Chego mesmo a estremecer
como se em palavras se concretizasse
esse anseio maldito
cínico sem humor
de que só mesmo a Morte

de matar-se tem valor

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A MÃE DA PATROA

Ela morreu nos meus braços. Os últimos suspiros de vida. De repente sossegou completamente. E adormeceu no seu sono profundo como uma criança, um bebê no conforto do embalo materno. Eu - a empregada da casa. Há dez anos já. Já tinha me apegado a ela. Muito mesmo até. Às vezes era difícil ver ela à beira da janela do apartamento, olhando longe, talvez em busca dum passado que fica a brilhar no horizonte como uma estrela que já viveu, que já existiu, mas que agora é só isso – um raio de luz bem distante da gente, do nosso céu. O que a senhora tá olhando, posso saber? Tá de olho em alguém? – eu brincava com ela. Ela então meio que despertava: Hãn? Não, não, minha filha. Falava doce. Tô só olhando. Chega uma época na nossa vida que a gente se sente assim, que só pode olhar... observar as coisas do mundo acontecendo, sem você, independente de você. Mas não é tristeza não, esse sentimento. É mais como quando se está diante de algo bem bonito e você sabe que dificilmente terá este algo só pra você, em suas mãos. É até bonito. É um sentimento de beleza, de contemplação... Aí ela parava, me olhava com um ar doce, calmo. Sempre serena. Saía, sem dizer mais nada, passando a mão pelo meu ombro, como se através daquele gesto tão simples pudesse ou quisesse me transmitir todo o seu conhecimento, a sua experiência, 97 anos de vida vividos. Muito tempo! Mesmo eu tendo apenas 39, já achava que tinha vivido muito. Me lembro que quando eu era bem mais nova, com uns 10 anos, ou com 18, sempre achava que já tinha vivido muito, que já sabia muito, que já não tinha mais nada pra viver, que já bastava. A minha patroa, a Dona Neusa, dizia que a gente na velhice parecia que desaprendia as coisas que tínhamos aprendido. Falava isso sempre que a mãe dela, a Dona Ildinha, cagava na roupa e saía pela casa, espalhando cocô caduco e fedorento. Cocô de gente velha fede muito. É igual à de bebezinho, só que mais nojento. Eu chegava e via D. Neusa possessa, gritando com D. Ildinha. Eu ia, pegava a velha e levava pra limpar, pra dar banho. Ela paciente, normal. Dava banho nela e depois ia limpar toda a merda espelhada pela casa. Um horror!, D. Neusa ficava exclamando, se lamentando. A mãe naquele estado. Acho que ela ficava com vergonha de mim. Num sei. É uma boa mulher. Uma boa patroa. Menos quando o assunto é aumento de salário. Mas tudo bem. Ela resiste um pouco, acho que só pra mostrar firmeza pro marido, pra não demonstrar tanta simpatia com os empregados da casa, comigo. Mas depois ela cede, convencida de que não arranjará outra pessoa de confiança, competente, pra trabalhar pra ela. Quando D. Ildinha morreu nos meus braços, ela, D. Neusa, me deu a corrente que a mãe dela usava. Me disse, pega pra você, Juliana. Você era mais íntima da minha mãe do que eu. Ela gostava muito de você. Te adorava... – eu, com lágrimas nos olhos... – mesmo que nesses seus dez anos de casa ela nunca tenha te chamado pelo seu nome (sorrio) você sabe, ela tinha muita estima por você. Adorava quando você chegava. Acho que ela não se sentia mais tão sozinha. Alguém com paciência pra conversar com ela, pra arrumar a bagunça que ela fazia... Hã, era mesmo! D. Ildinha nunca me chamou pelo meu nome. Todas as vezes que eu chegava e ela tava na sala, ia logo me dizendo, Bom Dia Márcia! Outro dia, Bom Dia Maria Célia! Bom Dia Luzia! A cada dia, um novo nome, mas que sempre se repetiam semana após semana. Perguntei pra minha patroa se ela sabia de onde a mãe dela tirava aqueles nomes. Ela não sabia. Desconfiava que talvez fosse de velhas amigas da mãe ou pura caduquice. Um dia eu disse pra D. Ildinha, a senhora sabe que esse não é o meu nome. Ela respondeu, carinhosa, não importa muito o nome da gente, sabe filha? Pras outras pessoas, a gente sempre é alguém que nós mesmos desconhecemos. A gente tem um nome, mas a verdade é que a gente se desconhece. Ninguém conhece ninguém. A gente mantém contatos mas nunca nos descobriremos. O abismo que há entre mim e você, entre nós e os outros, entre nós mesmos... é nesse abismo, filha, que está o que somos e não sabemos. Apesar de não entender muito o que ela queria dizer, eu sempre escutava, atenta, achando graça nas palavras dela, nas ideias. Era tão bom conversar com ela. Até mesmo quando ela cagava no chão da sala e ficava lá, à beira do próprio cocô, observando, observando. Não tinha quem tirasse ela de lá. Eu chegava de mansinho. Quê que a senhora tá fazendo aí? Ela chiava, XIUUUU! Silêncio. D. Ildinha... Mas será que nem uma pessoa da minha idade pode se examinar nas coisas que faz, nas coisas que come e que depois caga, sangra, expele...? Ei, filha, vem cá. Tá vendo esse monte de bosta? Ele também faz parte de mim, eu também sou ele. E, agora, que ele não tá mais em mim, e é uma parte minha, agora eu posso ver, conhecer algo de mim mesma que eu desconhecia. Entenda filha, nós também somos aquilo que comemos e que corre nas nossas veias, no nosso sangue, no nosso organismo, e também somos aquilo que cagamos, que cuspimos, que mijamos... que sai da gente. Ela levantava e saía andando. Eu continuava lá, confusa, achando pena e graça ao mesmo tempo, diante da merda. Na ocasião que ela morreu, dando seus últimos suspiros nos meus braços, a respiração cessando aos poucos, ela nem se retorceu, nem cagou. Eu fiquei alisando os cabelo dela. Aqueles fiozinhos tão finos, grisalhos, alguns cor de ferrugem. Ela gostava quando eu ficava horas e horas alisando o seu cabelo. Parecíamos mãe e filha, assim como quando ela adormeceu pra sempre no meu colo, nos meus braços, feito um bebê que no colo da mãe parece sentir um cheiro fortíssimo mistura de leveza e paz, realidade e sonho.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Da Singularidade de Ser Múltiplo

Cada um
tem um jeito especial
          diferente
          próprio
de sentir o aroma da rosa
         e de vê-la
         tocá-la
         senti-la

Cada um tem um jeito
todo especial
         diferente
         próprio
        de ser único

e de ser outros

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

POEMA SOBRE NADA

O ser e o nada na poesia

este é um poema sobrenada
sem imagens/sem rimas
sem palavras
este é um poema sobre nada
não faz sorrir
não faz chorar
não faz sentir nada
este é um poema sensentimento
sem entendimento
sem nada
este é um poema sobrehumano
sobre o comum/subnatural
é sobrenada
nem calça/nem chão/nem estrada
é sobrenão

Este é um poema sobre nada
não tenfim/nensurgimento
nem tem nada

este é um poema/um poema sobre nada