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domingo, 14 de maio de 2017

SOLITUDE




_ter consciência de estar sozinho
põe a gente sentimental
A gente procura por qualquer caminho
mas só encontra um vazio sem-igual_

*
_ter consciência da solidão
é mesmo um pensamento em vão:
...você olha para coisas
as pessoas vêm e vão...
mas nada ganha forma
Os olhos turvos – um borrão_

quinta-feira, 12 de março de 2015

A Descoberta da Solidão

Você sempre idealizou a solidão
Mas nunca esteve realmente sozinho
Agora sabe por que os primeiros humanos
Se reuniam em volta da fogueira
Para contar histórias, estrelas
Logo você
Sempre se achando tão diferente
Agora descobriu que quer o mesmo que todos querem
E mesmo assim prefere não dizer
Você não sabia, e dói aprender assim
Sabendo que a solidão também pode ser
Uma forma discreta de ressentimento
No silêncio da casa é que você percebe
Quão carentes nós somos
Não importa essa tristeza
Quando se sabe que não se pode contar nem consigo mesmo
Logo você
Que sempre idealizou a solidão
Agora sabe, e mais do que saber, sente
O que é estar realmente sozinho

terça-feira, 5 de agosto de 2014

SUICÍDIO

“A ideia do suicídio é um forte consolo. Ajuda a suportar muitas noites más.” – Para além do bem e do mal, Nietzsche

...qual é, por que tá hesitando tanto, já não basta de tanta indecisão? Oh, calma, respira, respira. Devagar, se concentra! Meu coração palpita forte demais, ou serão ruídos lá fora? Não posso mais continuar com essa vida, mas também não gostaria de morrer. Vou continuar aqui, quieto, esperando me convencer do que eu sempre tentei me fazer acreditar. Queria parar de chorar, de tremer, de sentir o meu corpo todo como se tivesse sendo consumido por frias chamas, minhas lágrimas ardem. Vejo tudo distorcido, ardendo. Alguém está à minha espera, mas já não quero comparecer a este encontro. Quantas e quantas vezes eu faltei a encontros, a reuniões, a compromissos? Quantos não ficaram a me esperar, ansiosos, aguardando inutilmente a minha chegada? Àqueles, eu pude faltar sem mais explicações ou pretextos. A essa, que agora sinto que me espera pacientemente, não sei se poderei fugir. Eu a chamei, a invoquei por muito tempo, ou marquei esse encontro inevitável, esse encontro precipitado. Sei que poderia adiá-lo – haverá tempo para isso? Passos, como se tivessem se aproximando, uma multidão a me espreitar. Todos me aguardam! Como demoro, vêm a mim. Não, eu não quero! Não mais! Não agora! Sentir meu coração disparado me faz desesperar, ele não se acalma, aperto ele com minhas mãos trêmulas, elas tão suadas, quentes. Meu corpo, frio... o peito arde... a cabeça a formigar e a minha boca tá seca... Como é horrível chegar a uma decisão a que já não se tem certeza! Não deveria ter permitido me desviar pelos pensamentos. A consciência me faz reconsiderar, ponderar. Até mesmo vacilar. Dar espaço aos impulsos, é o que eu deveria ter feito. Seria rápido, profundo e constante. E depois, em meio a tanta agonia, era só esperar o sangue me cobrir os olhos e me penetrar todos os sentidos... e morrer sem compreender bem que morria. Como num escurecer. O sangue espalhado ao redor do meu corpo – o sublime manto -, prova da minha coragem desesperada. O meu sangue me protegeria das ações das pessoas. Ele as afastaria de mim. Elas não gostam do sangue, muito menos do sangue dum suicida, de alguém que se renegou às circunstâncias da vida... Acham o sangue impuro, maldito... substância plena e simbólica dos ardores da existência e da morte. O sangue dum suicida não é rubro, nem vermelho. É sangue! É desprezível como o ser que o derramou, que o fez jorrar gratuitamente. O sangue dum suicida é sagrado, é profano: sagrado, porque faz parte da celebração dum ritual divino; profano, porque esse ritual divino também é pagão, devido ao paganismo de quem o celebra. Mas então é isso: o sangue sacroprofano é o que irá me purificar, me libertar, me integrar de volta ao plano de que fomos todos perdidos. Mas eu ainda terei ânimo para derramá-lo, terei coragem para verter dolorosamente esse meu sangue? Já nem me lembro por que quero me matar. Muitas coisas passam pela minha mente ao mesmo tempo, porém, são só lembranças e pensamentos e ideias que não se deixam agarrar, não se fixam no meu consciente, não estou certa da natureza deles. Agora me lembro que ainda ontem eu relembrava que fui aprendendo, forçosamente, me submetendo e me coagindo a não temer a solidão, a loucura e a lucidez extremas, a frieza natural dos objetos e das paredes dos edifícios. Eu me forcei a aprender a ser mais tolerante com os equívocos e com os preconceitos, com as atitudes mesquinhas das pessoas, que por vezes nos afagam, nos sufocam e até mesmo nos matam... Há um tempo elas já não me interessam. Eu me coagir a aprender que muitas coisas são possíveis e que poucas delas são verdadeiras, legitimas. Fui aprendendo tudo que se oferecia a mim, e apreendendo tudo que eu me obrigava recusar, e então eu me perguntei: o que é que me ficou, o que é que me sobrou, o que eu tinha conseguido acumular, oh, o que é que eu tinha para me segurar, para me apoiar, para me confirmar, para me agarrar e não cair trágica e pateticamente? Ah, se todos se negam a me ajudar, se todos me negam um suporte, minha nossa, como isso é tão forte e irreal! Matar-se é tão difícil quanto viver. E agora percebo que em nada essas duas questões se resumem ao fato de se ter ou não coragem para realizá-las e encarná-las de sentidos. O problema que as envolve, e com o qual eu me deparo, é profundamente complicado! E a única coisa que me parece sobrar, é chegar a hipóteses vagas e imprecisas sobre ele... Me lembro de certas palavras

SUICÍDIO (continuação)

 “Não importa o quanto tentemos, o quanto nos esforcemos e nos empenhemos, a ele, a este problema abismal, a este abismo sobre o qual nos lançamos ou que então ficamos a contemplar, só conseguiremos chegar a uma pequena, falsa e ardil porção de um imenso e pérfido emaranhado de camadas e depressões.”
“Matar-se, ou continuar a viver, pode-se realizar sob tantas circunstâncias, sob tantos projetos e objetivos, que talvez seja por isso a dificuldade tremenda que sentimos e vivenciamos nas situações em que nos parece que nós mesmos nos exigimos um rumo a ser apontado, um caminho a ser seguido, uma decisão a ser tomada, para se constituir na construção de uma vida ou para se consumar nas ruínas da morte.”
“Para convencer-se do suicídio, é preciso pensá-lo estando deitado, porque, quando deitados sobre nós mesmos e sobre nossas mãos, não sentimos mais o peso da existência, das pessoas, só nos sentimos a nós mesmos e nos sentimos completamente mutilados. E então poderemos olhar tudo ao redor para trazermos à tona tudo que permanece ausente, para nos encantarmos com a irrefutável beleza de todas as criaturas, tanto as da natureza como as humanas, e entendermos que elas, e nós mesmos, nunca fomos outra coisa senão isso: beleza! – uma beleza que não encerra em si mesma um significado e uma importância, por isso é que não se deve se crucificar tanto com a angustiante indecisão de se matar ou não. Além disso, viver em angustia contínua já é estar se matando. Existir nunca nos foi uma escolha. Não querer viver essa existência, sim!” 
    A maioria dos suicidas foram pessoas que acharam ter chegado ao extremo e se mataram. Sinto uma estima mórbida por elas e por seus atos derradeiros. Porém, me desanimo e novamente me desespero por não me decidir como elas. Eu costumava acreditar que somente por um impulso negativo se chegaria à conclusão de que talvez só fosse possível transformar intensamente a vida, e a si próprio, exterminando, liquidando essa existência assentada na imanência de todo uma realidade, ao mesmo tempo, exterior e objetiva e interior e subjetiva. Esses dilemas, essas dualidades me exasperam! Quero olhar pra mim mas tenho medo dos meus movimentos. Tenho medo de pensar em fazer uma coisa e quando menos esperar me deparar fazendo outra: a mão que vai sentir o peito e quando se percebe ela o apunhalou intencionalmente, rasgou suas vísceras e espalhou sangue por todo o corpo... Eu costumava acreditar que os suicidas eram pessoas que, ao sustentarem a hipótese da existência dum caos interminável e imutável, sob o qual a realidade do mundo, que é a nossa, estaria inevitavelmente atrelada, e tomados por sucessivas e violentas alucinações, psicoses, neuroses, sentimentos de angustia e desespero, eles, por um momento – o momento anterior ao da resolução final – ficavam serenos, brandos e indiferentes, pois se convenciam de que não há por quê sofrer tanto com o impasse de se morrer ou se manter vivo num mundo de seres e objetos e de muitos outros elementos carentes de sentido.
Parece que lá fora, e mesmo aqui dentro, tudo se aquietou... As mães devem dormir com seus filhos... a mulher, com seu amante... e cada um com sua dor e sua alegria... fatais... A madrugada é plena... tudo ocorre em seu misterioso ritmo costumeiro... Daqui a pouco será dia e eu, exausto, estarei dormindo o silêncio do mundo, completamente só, mais uma vez...

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

SEM PALAVRAS - PRAZER SOLITÁRIO

Gozo humano? Gozo de pessoa. Gozo da carne, do osso – explosão do corpo todo. Todos os sentidos. A sensação de alívio. O louco delírio. Acompanhado de agonia. Deus deve ter se sentindo assim quando ejaculou a natureza e entreviu um mundo sendo criado por superespermatozóides. O outro ser. A pessoa, lá, deitada ao seu lado. Aquela passividade. Aquele silêncio cheio de rumores. O lençol repleto de solidão. Os olhos fixos no vazio que só olhos da gente nessas horas podem ver. A lembrança sem acontecimento. A memória atemporal. Como se fôssemos parte duma recordação presente. Me aborreço. Mando embora. Anda, levanta e sai. Vai. Tão seco. Mas isento de mágoa. Apenas a sensação de que as palavras não servem, não dão conta de expressar o que sinto. O que me aflige. Me interroga. Por quê? A mente da gente... nós mesmos... a grande dúvida. Ter alguém. Ela, a outra pessoa. Uma maneira de termos a nós mesmos. Fisicamente? Carne e osso. Suor e pele. E o vazio que não cabe no espaço. Na distância entre nós. Na distância dum espaço tão mínimo. Não é o vazio vazio. O oco solto. A melancolia. É mais como enfiar a mão por dentro de si mesmo e sentir-se sem se sentir. Sem, em ti. Sem, em mim. Vai. Não pergunta. Não diz. Isso não tem nada a ver com o que podemos dizer um ao outro. Nada do que aconteceu importa. Tem importância? Então vai. Sai pela porta. Quem sabe em outra circunstância. Agora, quero estar só comigo. A sós comigo. Não diga bobagens. Isso não tem nada a ver contigo. É como tudo. A comunicação? A comum ação? Não é por que falamos a mesma língua... não é por que usamos praticamente as mesmas palavras, expressões, ditos, frases e tudo o mais que isso, que temos algo em comum. Que partilhamos as mesmas experiências. Que expressamos exatamente igual, ou às vezes com pequenas variações, aquilo que vivemos. A comunicação. A comum ação. A comungação. A comunhão. É mesmo isso? A solidão do nascimento. A solidão do viver. A solidão sólida em nós. A alegria estéril no sorriso. Não vêm com a gente. Vêm com os outros. Dos outros para nós. De nós para os outros. Veste a roupa e me diz o que sente enquanto abro a porta e vejo você sair. Amor, não. Vai embora. O meu desejo não está mais no gozo do teu corpo. E o meu corpo não deseja mais ser teu. Vai. Sem medo. Sem tristeza. Que a vida é solidão. Alegria... satisfeita consigo mesma.