quando
se é jovem, e se pensa que mudará o mundo/ e solucionará os
problemas sociais do seu país/ que se defenderá uma causa e
carregará uma bandeira/ então todo o seu corpo e sua mente ficam
fervorosos/ desejando mudanças revoluções soluções/ E, de tanto
anseio, as inquietudes lhe fazem sofrer/ as mazelas parecem
infindáveis/ as angústias atormentam seus pensamentos/ a miséria a
fome a desigualdade/ insinuam-se mais provocantes/ E os momentos de
desânimo/ de querer se entregar/ são ainda mais perturbadores/
Inicia-se, então, uma luta árdua, ferrenha, entre a realidade do
Caos e a beleza dos sonhos... quando se é jovem
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terça-feira, 30 de setembro de 2014
terça-feira, 5 de agosto de 2014
SUICÍDIO
“A
ideia do suicídio é um forte consolo. Ajuda a suportar muitas
noites más.”
– Para
além do bem e do mal, Nietzsche
...qual
é, por que tá hesitando tanto, já não basta de tanta
indecisão? Oh, calma, respira, respira. Devagar, se
concentra! Meu coração palpita forte demais, ou serão ruídos lá
fora? Não posso mais continuar com essa vida, mas também não
gostaria de morrer. Vou continuar aqui, quieto,
esperando me convencer do que eu sempre tentei me fazer acreditar.
Queria parar de chorar, de tremer, de sentir o meu corpo todo como se
tivesse sendo consumido por frias chamas, minhas lágrimas ardem.
Vejo tudo distorcido, ardendo. Alguém está à minha espera, mas já
não quero comparecer a este encontro. Quantas e quantas vezes eu
faltei a encontros, a reuniões, a compromissos? Quantos não
ficaram a me esperar, ansiosos, aguardando inutilmente a minha
chegada? Àqueles, eu pude faltar sem mais explicações ou
pretextos. A essa, que agora sinto que me espera pacientemente, não
sei se poderei fugir. Eu a chamei, a invoquei por muito tempo, ou
marquei esse encontro inevitável, esse encontro precipitado. Sei que
poderia adiá-lo – haverá tempo para isso? Passos, como se
tivessem se aproximando, uma multidão a me espreitar. Todos me
aguardam! Como demoro, vêm a mim. Não, eu não quero! Não mais!
Não agora! Sentir meu coração disparado me faz desesperar, ele
não se acalma, aperto ele com minhas mãos trêmulas, elas tão
suadas, quentes. Meu corpo, frio... o peito arde... a cabeça a
formigar e a minha boca tá seca... Como é horrível chegar a uma
decisão a que já não se tem certeza! Não deveria ter permitido me
desviar pelos pensamentos. A consciência me faz reconsiderar,
ponderar. Até mesmo vacilar.
Dar espaço aos impulsos, é o que eu deveria ter feito. Seria
rápido, profundo e constante. E
depois, em meio a tanta agonia, era só esperar o sangue me cobrir os
olhos e me penetrar todos os sentidos... e morrer sem compreender bem
que morria. Como num escurecer. O sangue espalhado ao redor do meu
corpo – o sublime manto -, prova da minha coragem desesperada. O
meu sangue me protegeria das ações das pessoas. Ele as afastaria de
mim. Elas não gostam do sangue, muito menos do sangue dum suicida,
de alguém que se renegou às circunstâncias da vida... Acham o
sangue impuro, maldito... substância plena e simbólica dos ardores
da existência
e da morte. O sangue dum suicida não é rubro, nem vermelho. É
sangue! É desprezível como o ser que o derramou, que o fez jorrar
gratuitamente. O sangue dum suicida é sagrado, é profano: sagrado,
porque faz parte da celebração dum ritual divino; profano, porque
esse ritual divino também é pagão, devido ao paganismo de quem o
celebra. Mas então é isso: o sangue sacroprofano é o que irá me
purificar, me libertar, me integrar de volta ao plano de que fomos
todos perdidos. Mas eu ainda terei ânimo para derramá-lo, terei
coragem para verter dolorosamente esse meu sangue? Já nem me lembro
por que quero me matar. Muitas coisas passam pela minha mente ao
mesmo tempo, porém, são só lembranças e pensamentos e ideias que
não se deixam agarrar, não se fixam no meu consciente, não estou
certa da natureza deles. Agora me lembro que ainda ontem eu
relembrava que fui aprendendo, forçosamente, me submetendo e me
coagindo a não temer a solidão, a loucura e a lucidez extremas, a
frieza natural dos objetos e das paredes dos edifícios. Eu me
forcei a aprender a ser mais tolerante com os equívocos e com os
preconceitos, com as atitudes mesquinhas das pessoas, que por vezes
nos afagam, nos sufocam e até mesmo nos matam... Há um tempo elas
já não me interessam. Eu me coagir a aprender que muitas coisas
são possíveis e que poucas delas são verdadeiras, legitimas. Fui
aprendendo tudo que se oferecia a mim, e apreendendo tudo que eu me
obrigava recusar, e então eu me perguntei: o que é que me ficou,
o que é que me sobrou, o que eu tinha conseguido acumular, oh, o que é que eu tinha para me segurar, para me apoiar, para me
confirmar, para me agarrar e não cair trágica e pateticamente?
Ah, se todos se negam a me ajudar, se todos me negam um
suporte, minha nossa, como isso é tão forte e irreal!
Matar-se é tão difícil quanto viver. E agora percebo que em nada
essas duas questões se resumem ao fato de se ter ou não coragem
para realizá-las e encarná-las de sentidos. O problema que as
envolve, e com o qual eu me deparo, é profundamente complicado! E a
única coisa que me parece sobrar, é chegar a hipóteses vagas e
imprecisas sobre ele... Me lembro de certas palavras
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SUICÍDIO (continuação)
“Não
importa o quanto tentemos, o quanto nos esforcemos e nos empenhemos,
a ele, a este problema abismal, a este abismo sobre o qual nos
lançamos ou que então ficamos a contemplar, só conseguiremos
chegar a uma pequena, falsa e ardil porção de um imenso e pérfido
emaranhado de camadas e depressões.”
“Matar-se,
ou continuar a viver, pode-se realizar sob tantas circunstâncias,
sob tantos projetos e objetivos, que talvez seja por isso a
dificuldade tremenda que sentimos e vivenciamos nas situações em
que nos parece que nós mesmos nos exigimos um rumo a ser apontado,
um caminho a ser seguido, uma decisão a ser tomada, para se
constituir na construção de uma vida ou para se consumar nas ruínas
da morte.”
“Para
convencer-se do suicídio, é preciso pensá-lo estando deitado,
porque, quando deitados sobre nós mesmos e sobre nossas mãos, não
sentimos mais o peso da existência, das pessoas, só nos sentimos a
nós mesmos e nos sentimos completamente mutilados. E então
poderemos olhar tudo ao redor para trazermos à tona tudo que
permanece ausente, para nos encantarmos com a irrefutável beleza de
todas as criaturas, tanto as da natureza como as humanas, e
entendermos que elas, e nós mesmos, nunca fomos outra coisa senão
isso: beleza! – uma beleza que não encerra em si mesma um
significado e uma importância, por isso é que não se deve se
crucificar tanto com a angustiante indecisão de se matar ou não.
Além disso, viver em angustia contínua já é estar se matando.
Existir nunca nos foi uma escolha. Não querer viver essa existência,
sim!”
A
maioria dos suicidas foram
pessoas que
acharam ter chegado ao extremo e se mataram. Sinto uma estima mórbida
por elas e por seus atos derradeiros. Porém,
me desanimo e novamente me desespero por não me decidir como elas.
Eu costumava acreditar que somente por um impulso negativo se
chegaria à conclusão de que talvez só fosse possível transformar
intensamente a vida, e a si próprio, exterminando, liquidando essa
existência assentada na imanência de todo uma realidade, ao mesmo
tempo, exterior e objetiva e interior e subjetiva. Esses
dilemas, essas dualidades me exasperam!
Quero olhar pra mim mas tenho medo dos meus movimentos. Tenho medo de
pensar em fazer uma coisa e quando menos esperar me deparar fazendo
outra: a mão que vai sentir o peito e quando se percebe ela o
apunhalou intencionalmente, rasgou suas vísceras e espalhou sangue
por todo o corpo... Eu costumava acreditar que os suicidas eram
pessoas que, ao sustentarem a hipótese da existência dum caos
interminável e imutável, sob o qual a realidade do mundo, que é a
nossa, estaria inevitavelmente atrelada, e tomados por sucessivas e
violentas alucinações, psicoses, neuroses, sentimentos de angustia
e desespero, eles, por um momento – o momento anterior ao da
resolução final – ficavam serenos, brandos e indiferentes, pois
se convenciam de que não há por quê
sofrer tanto com o impasse de se morrer ou se manter vivo num mundo
de seres e objetos e de muitos outros elementos carentes de
sentido.
Parece que lá fora, e mesmo aqui
dentro, tudo se aquietou... As mães devem dormir com seus filhos...
a mulher, com seu amante... e cada um com sua dor e sua alegria...
fatais... A madrugada é plena... tudo ocorre em seu misterioso ritmo
costumeiro... Daqui a pouco será dia e eu, exausto,
estarei dormindo o silêncio do mundo, completamente
só, mais uma vez...
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