quarta-feira, 18 de junho de 2014

A MÃE DA PATROA

Ela morreu nos meus braços. Os últimos suspiros de vida. De repente sossegou completamente. E adormeceu no seu sono profundo como uma criança, um bebê no conforto do embalo materno. Eu - a empregada da casa. Há dez anos já. Já tinha me apegado a ela. Muito mesmo até. Às vezes era difícil ver ela à beira da janela do apartamento, olhando longe, talvez em busca dum passado que fica a brilhar no horizonte como uma estrela que já viveu, que já existiu, mas que agora é só isso – um raio de luz bem distante da gente, do nosso céu. O que a senhora tá olhando, posso saber? Tá de olho em alguém? – eu brincava com ela. Ela então meio que despertava: Hãn? Não, não, minha filha. Falava doce. Tô só olhando. Chega uma época na nossa vida que a gente se sente assim, que só pode olhar... observar as coisas do mundo acontecendo, sem você, independente de você. Mas não é tristeza não, esse sentimento. É mais como quando se está diante de algo bem bonito e você sabe que dificilmente terá este algo só pra você, em suas mãos. É até bonito. É um sentimento de beleza, de contemplação... Aí ela parava, me olhava com um ar doce, calmo. Sempre serena. Saía, sem dizer mais nada, passando a mão pelo meu ombro, como se através daquele gesto tão simples pudesse ou quisesse me transmitir todo o seu conhecimento, a sua experiência, 97 anos de vida vividos. Muito tempo! Mesmo eu tendo apenas 39, já achava que tinha vivido muito. Me lembro que quando eu era bem mais nova, com uns 10 anos, ou com 18, sempre achava que já tinha vivido muito, que já sabia muito, que já não tinha mais nada pra viver, que já bastava. A minha patroa, a Dona Neusa, dizia que a gente na velhice parecia que desaprendia as coisas que tínhamos aprendido. Falava isso sempre que a mãe dela, a Dona Ildinha, cagava na roupa e saía pela casa, espalhando cocô caduco e fedorento. Cocô de gente velha fede muito. É igual à de bebezinho, só que mais nojento. Eu chegava e via D. Neusa possessa, gritando com D. Ildinha. Eu ia, pegava a velha e levava pra limpar, pra dar banho. Ela paciente, normal. Dava banho nela e depois ia limpar toda a merda espelhada pela casa. Um horror!, D. Neusa ficava exclamando, se lamentando. A mãe naquele estado. Acho que ela ficava com vergonha de mim. Num sei. É uma boa mulher. Uma boa patroa. Menos quando o assunto é aumento de salário. Mas tudo bem. Ela resiste um pouco, acho que só pra mostrar firmeza pro marido, pra não demonstrar tanta simpatia com os empregados da casa, comigo. Mas depois ela cede, convencida de que não arranjará outra pessoa de confiança, competente, pra trabalhar pra ela. Quando D. Ildinha morreu nos meus braços, ela, D. Neusa, me deu a corrente que a mãe dela usava. Me disse, pega pra você, Juliana. Você era mais íntima da minha mãe do que eu. Ela gostava muito de você. Te adorava... – eu, com lágrimas nos olhos... – mesmo que nesses seus dez anos de casa ela nunca tenha te chamado pelo seu nome (sorrio) você sabe, ela tinha muita estima por você. Adorava quando você chegava. Acho que ela não se sentia mais tão sozinha. Alguém com paciência pra conversar com ela, pra arrumar a bagunça que ela fazia... Hã, era mesmo! D. Ildinha nunca me chamou pelo meu nome. Todas as vezes que eu chegava e ela tava na sala, ia logo me dizendo, Bom Dia Márcia! Outro dia, Bom Dia Maria Célia! Bom Dia Luzia! A cada dia, um novo nome, mas que sempre se repetiam semana após semana. Perguntei pra minha patroa se ela sabia de onde a mãe dela tirava aqueles nomes. Ela não sabia. Desconfiava que talvez fosse de velhas amigas da mãe ou pura caduquice. Um dia eu disse pra D. Ildinha, a senhora sabe que esse não é o meu nome. Ela respondeu, carinhosa, não importa muito o nome da gente, sabe filha? Pras outras pessoas, a gente sempre é alguém que nós mesmos desconhecemos. A gente tem um nome, mas a verdade é que a gente se desconhece. Ninguém conhece ninguém. A gente mantém contatos mas nunca nos descobriremos. O abismo que há entre mim e você, entre nós e os outros, entre nós mesmos... é nesse abismo, filha, que está o que somos e não sabemos. Apesar de não entender muito o que ela queria dizer, eu sempre escutava, atenta, achando graça nas palavras dela, nas ideias. Era tão bom conversar com ela. Até mesmo quando ela cagava no chão da sala e ficava lá, à beira do próprio cocô, observando, observando. Não tinha quem tirasse ela de lá. Eu chegava de mansinho. Quê que a senhora tá fazendo aí? Ela chiava, XIUUUU! Silêncio. D. Ildinha... Mas será que nem uma pessoa da minha idade pode se examinar nas coisas que faz, nas coisas que come e que depois caga, sangra, expele...? Ei, filha, vem cá. Tá vendo esse monte de bosta? Ele também faz parte de mim, eu também sou ele. E, agora, que ele não tá mais em mim, e é uma parte minha, agora eu posso ver, conhecer algo de mim mesma que eu desconhecia. Entenda filha, nós também somos aquilo que comemos e que corre nas nossas veias, no nosso sangue, no nosso organismo, e também somos aquilo que cagamos, que cuspimos, que mijamos... que sai da gente. Ela levantava e saía andando. Eu continuava lá, confusa, achando pena e graça ao mesmo tempo, diante da merda. Na ocasião que ela morreu, dando seus últimos suspiros nos meus braços, a respiração cessando aos poucos, ela nem se retorceu, nem cagou. Eu fiquei alisando os cabelo dela. Aqueles fiozinhos tão finos, grisalhos, alguns cor de ferrugem. Ela gostava quando eu ficava horas e horas alisando o seu cabelo. Parecíamos mãe e filha, assim como quando ela adormeceu pra sempre no meu colo, nos meus braços, feito um bebê que no colo da mãe parece sentir um cheiro fortíssimo mistura de leveza e paz, realidade e sonho.

domingo, 8 de junho de 2014

xxxPornoesiaxxx

Tristeza Lascívia

entre os morangos
e pêssegos mofados
na gaveta
de calcinhas comestíveis
(indigeríveis)
o vibrador estrangulado
por um silêncio
de suplícios


no buço
apagado
no ranço
sem viço
o peito
amargo
um seio
sem vícios


no sofá de pernas abertas
sorve o chá que borbulha gelo seco
na mesinha de centro
três rastros
de lágrimas
de um véu negro



essa demência
       de estar livre
       de roçar
o corpo todo
é mesmo
      não estar livre
      é engolfar
      no próprio
gozo



sobre o peito nu
ela chama a companheira
das horas mornas e solitárias

respirando amena
e vaporizando as aureolas
dos seios róseos
Ela deita do lado dela

deita Ela sobre ela

ouvindo os ruídos e as ruínas
do coração
adormece
enquanto a outra
insone na vigília
chora baixinho
como se orasse a um deus
que soubesse não entendê-la


uma garrafa de vodca
pêssegos mordidos
e espalhados pelo chão
na mão pendurada
à beira da cama
o amor suspenso
na ilusão de uma vida dura

na noite anterior
se derramava
numa felação molhada
por um jesus-falo
roliço
menino
20 cm
superadorado

no travesseiro ao lado
o amante dorme
impassível
um objeto sem sentimentos
depois que acabam as pilhas




Sylvia Plath

Você sempre goza em mim
Goza de mim
com essa cara de alívio de satisfação
Me enche de porra
Que porra!
Essa sua expressão de quem nasce de quem morre
de quem está curtindo seu paraíso-zen
Que merda!
Não me enche!
Não me toca!
Não vê que o meu prazer é solitário
Meus dedos têm a ternura do meu egoísmo
E se gozam
e gozam
é com meu prazer

—Vamos, não finja que não sabe o que quero dizer




Dentro da Boca

A parte de você que eu tenho na boca
tem o mesmo gosto do seu braço
o mesmo cheiro do seu abraço
Tem o gosto estranho perfeito do seu gozo
se espalhando dentro de mim
me invadindo as veias
passando direto pelo útero
ácido que corrói
destrói
excita

A parte de você que eu tenho na boca
com a qual me comunico com a língua
com os dentes
com minhas palavras salivas
é sua parte mais nobre:
bem menos dramática que seu coração
bem mais sincera que seu amor
bem mais exultante que suas promessas
bem menos sufocante que seus carinhos





… AI, ESSA TUA SALIVA
LEITOSA
SALGADA
ESPESSA...
DERRAMA MAIS DELA
EM MINHA BOCA...
ELA É QUE ME DELEITA!



AS TUAS ALVAS
COSTAS NUAS
ESBATEM OS TEUS
LONGOS CABELOS NEGROS

E, ÀS CURVAS FORMAS
DAS COSTAS TUAS,
AS MINHAS MÃOS TREMULAS
ARDENTES FLUTUAM




Sombra de um Suspiro

nesses teus braços
o ócio é tesão puro!
Aspiro da tua boca
todo oxigênio necessário
para queimar os meus pulmões
e acender a vela do Amor
Tua língua me deixa
todo embalsamado
dos teus seios as minhas mãos e os meus lábios
se deixam escravos
as tuas costas são uma queda caudalosa
e alva
do mais libertino Silêncio
uma borboleta ofegante pousa no teu ombro-lótus
para que ela voe
assopro no teu gemido
sinto o teu ardor
se derramando no meu sexo
sinto que você já se encaixa em mim
um suspiro profundo
vejo você linda e enorme
um corpo maravilhoso

fazendo sombra de mim

quinta-feira, 29 de maio de 2014

xxx Poesia Porno xxx

Inútil Fingir

— Ora, menina!
Se te amo?
Mas é claro que te amo
E te amo com ternura
Só não finja que não sabe
que também anseio você nua...


Poema Saidinho (2006)

Sou poema que quer se deitar com você
Por isso, agora, me põe no seu colo
e deixe que as palavras saíam do limite da folha
           [e sejam mãos acariciando os seus joelhos

            Isso!

Imagina eu ajoelhado diante de você
com os olhos à altura dos seus seios
desejando tocá-los
com o mesmo fervor com que toca em mim

         ...afago sua cintura
         seu quadril
         e inclino minha cabeça
         no meio de suas pernas latejantes

        Devagar
        bem devagar
        com leveza e suavidade

Sinto o gosto humano
e o calor de suas coxas...


      Isso
            Oh
      Isso
           Oh
     Ah
          Oh

    (o suspiro é um susto de deleite)

— Já não sou mais só um poema
    e você não é mais só uma leitora

Suas mãos estão em mim
assim como minhas palavras
    delirantes
    erram por você toda...

    Isso, vai!
Sinta comigo... descubra
o desejo carnal de ser possuído
   lido
   sublimado...




Calma, amor
Devagar
Me deixa sentir
sua cintura
o seu cheiro
Me deixa perceber
os movimentos de suas mãos
dos seus lábios
de suas pernas...
Geme, amor
devagar, baixinho...

    Calma, amor
    Devagar
    que eu vou divagar

    pelo teu corpo





segunda-feira, 12 de maio de 2014

Poemas Nietzscheanos

Sem Linguagem

Ficar diante das coisas
é vê-las e só pensar:
vejo... elas existem...
A vida plena
a existência sem linguagem
Só palavras... As coisas...
O murmúrio
A mudez de tudo
em tudo

Condicional

Sério
Sereno
Mudo
Como sério
Seria tudo
Que sereno
Mudo
Se fizesse
Sem no entanto
Mudo
Consentir com tudo
Que não lhe fosse
Sério
Sereno
Mútuo


Poema Para Ser Esquecido

Poema para ser esquecido
Esquece-o
e jamais esquecerá
que um dia já o tivera lido
só para esquecê-lo em seguida
como se nunca tivera sido

Esquece-o

sem pensá-lo
porque pensar é contrário ao olvido
e contrariar o que quer ser esquecido
é condená-lo ao passado

Esquece-o

totalmente
como se ele estivesse escrito
com as palavras desnudas de silêncio

Esquece-o

em seus ouvidos
porque
ainda que o lera
um dia
ele jamais lembrará
que já o tivera lido

Esquece-o...
porque só a Eternidade
pura do esquecimento
é que o eternizará
no Templo do Olvido


Palavras-formigas

Folha de papal
em branco
é como um monte
de açúcar glacê:
atrai um bando de
palavras-formigas
que aos poucos
se amontoam
e se deixam ler


Peçonha

Põe o meu dedo em sua boca
como quem fosse beijar uma serpente

Vai... Assim... Sem medo
pois se algum veneno inocular em você
(tenha certeza)
não sairá pelo meu dedo


Canção Pra te Ouvir

Levanta
ou senta
Fica à vontade
Se bater a saudade
diz o que posso fazer
pra te ver sorrir

Só não fica assim
de pé
na vigília senfim
da solidão

Diz o que quer
Eu sei que te quero
E não te trago
em sonhos vãos

Esses teus olhos acesos
dois círios iluminados
na amplidão calada
E a tua música sensível só
aos meus sentidos

Fala do tempo
       futuro
       antigo
Conta pra mim
sobre aqueles amigos

Diz que eu te conheço
      desde hoje
      desde nunca
      desde sempre

Diz qualquer coisa
mesmo no silêncio
só pr'eu saber
como cantar pra você
e te ouvir


Ainda Sem V C ^

Olho no espelho/procurando sua face/mas como poderia ver o seu rosto/com os seus olhos?/A luz refletida do espelho/me atravessa/Algo em você/me atravessa
Sua luz seu calor/Há algo em você/que resplandece/em mim
Ou será delírio meu/Eu que estou sob um sol escaldante?/Não sei até onde isso importa...

Só sei e sinto/sem estar com V C ^

terça-feira, 4 de março de 2014

O Erro do Poeta

O poeta sabota o amor
só pra ter o que escrever
A sua estética parece não soar bem
com coisas felizes
Foge do clichê de um grande amor
se refugiando na ilusão dos sentimentos amargos

Deitado numa cama
de uma mulher que logo esquece
nem sabe do sofrimento daquela que o espera
A poesia – um joguete retórico de palavras vazias

Quem se enganou depois de se olhar no espelho
e se sentir confuso, perdido?
A barba rala por fazer
no rosto amassado

A luz se apaga e os olhos se afogam
na escuridão vermelha
Chorar não pode
a tristeza pesa inerte sobre suas roupas no chão

Quem condenará o poeta
por ele falar de sentimentos
sem saber exatamente o que sente?
(O poeta é só uma pessoa que se perde
em meio a tantas palavras
rabiscando versos como quem
projeta labirintos dos quais não se pode sair)

A madrugada passa arrastada
rasgando o amanhecer
Ele veste a roupa
Ela, deitada, nem se despede
sabe que ele voltará sempre
a atração irresistível de um consolo sem compromissos

Na ressaca dos pensamentos
ele sabe que só no retorno pra casa poderá dormir
Mas a consciência embaça:
na retina machucada pelo choro contido
o rosto daquela que lhe abrirá a porta
dando-lhe um beijo sincero
sem fazer perguntas da noite em que esteve ausente
Ela lavará o seu corpo
do suor de um amor impuro
e se deitará com ele na cama
O gozo será lento e morno
entrecortado pelos soluços dos dois abraçados

— e lá fora será o mundo hostil

Poema da Mulher para a Amante

quando ele chegou
        assim
cabisbaixo, sereno, alheio ao meu anseio
nem notou o arranjo amoroso em cima da mesa
        de jantar
logo percebi: algo mudou, ele chegou mas não veio por inteiro
um boa-noite rouco, um afago fraco
os cabelos em desalinho
o colarinho amassado

eu pensei em desespero: te perdi

ele sentou, fingiu que comeu, mastigando em falso como quem devora angústias

       na sala – o silêncio suspenso nos gestos que a gente não fez

       o riso frouxo, ou o amor farto

a frase dele incompleta que eu não deixei
que proferisse

melhor, me disse, não dizer nada

agora eu sei que talvez ele chore baixinho
         [enquanto você dorme triunfante sobre o peito dele

          que um dia foi meu

Cínica Confissão

confessar eu confesso
que te quero tanto
e de sentimento tão impuro
que nem sei se te querer
                 assim
seja algo que se confesse

               não se assuste
               é só desejo indócil
               frágil obsessão

e dizer que não
que não te quero
             e repetir
pra mim mesmo
            que não
que não te quero
            e mesmo assim
sofrer a desrazão

            tudo bem
te querer eu te quero
e mesmo não sendo em vão
esse sentimento é um inferno
um paraíso ao avesso

            avesso a toda razão