domingo, 2 de julho de 2017

A Utopia das Distopias

“Nós estamos legando ao futuro bens de consumo fossilizados. Roupas, carros, aparelhos eletrônicos, e milhares de outros produtos, úteis e inúteis, que marcam esta civilização.”

Distopia e ficção científica andam quase sempre juntas. Às vezes, de modo indistinguível. Basta pensarmos ou lembrarmos de livros como 1984 de George Orwell, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury. Todos eles já consolidados como clássicos da Literatura Ocidental. Sem dúvidas, obras de relevância literária e político-social. Distopias nas quais as “pessoas” são “fabricadas” e educadas com características sociais e psicológicas pré-determinadas, para viverem em sociedades onde, não só os alimentos são deliberadamente racionados, mas também o conhecimento, ou melhor, o acesso ao saber, ao legado cultural, à História, pois, ou o passado está em constante “reconstrução” pelo Estado, ou as obras pelas quais seria possível conhecer um pouco mais sobre o conhecimento acumulado pela nossa espécie são impiedosamente destruídas pelas chamas da ignorância e intolerância de bombeiros incendiários.

Enredos, certamente, conhecidos por uma boa gama de leitores.

Agora, o que pouca gente deve saber ou conhecer é um livro de um autor brasileiro, no qual, distopia e ficção científica estão intricadas num retrato desolador de uma nação autoritária, de um certo país do futuro.

Não Verás País Nenhum, do escritor Ignácio de Loyola Brandão, foi lançado em 1981. Nele, acompanhamos o personagem Souza, ex-professor de História, aposentado compulsoriamente pelo governo vigente, e que agora trabalha como burocrata pelo regime oficial. Sua resignação ao status quo começa a tomar rumos diferentes quando, certo dia, ele acorda com um furo no meio da mão. Este furo pode ser entendido de diversas formas, conforme a história avança. Pode ser simplesmente um problema físico, material, prático, psicológico, talvez decorrente das péssimas condições a que a população está submetida. Ou, uma espécie de metáfora pela qual se quer expressar que algo foi arrancado da vida de Souza, e das demais personagens a viver sob tal situação. O buraco também pode ser visto como uma possibilidade, uma passagem, um portal, uma janela pela qual o personagem pode ver, finalmente, o mundo a sua volta e, daí, vislumbrar, quem sabe, uma guinada em sua existência.

Souza e sua esposa Adelaide vivem em São Paulo. No livro, a cidade, assim como todas as demais, está desmantelada social e ecologicamente pelos avanços tecnológicos empregados de forma irresponsável, dos quais resultaram em falta de água, desmatamento da natureza e cerceamento de pensamento, de expressão, de individualidade. O cheiro mais comum é o de carne podre dos cadáveres a tostar sob o calor escaldante. Nesse cenário, o insólito, o irracional, o desumano é o corriqueiro, o banal. As pessoas menos privilegiadas bebem urina reciclada, só andam por determinados lugares, que são delimitados hierarquicamente de acordo com o status social de cada estrato, e que estão constantemente superlotados, ao ponto de elas terem que andar a passos curtíssimos, como se fossem um rebanho obstinado a caminho do abatedouro.

      Este livro é realmente de 1981?! Mas como é possível, se fala de temas tão contemporâneos, como a crise hídrica, a escassez de alimentos, o total descaso com o meio ambiente, aquecimento global, as dificuldades de mobilidade urbana... etc.?

      Uma obra perene, profética e desafiadora, como deve ser todo bom livro de Literatura, seja ele um romance distópico ou uma ficção científica.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

No nosso Deserto

quero me perder no teu deserto
no deserto do teu corpo
nas dunas do teu dorso
quero me afogar nas areias dos teus cabelos
que as carícias das tuas mãos
me açoitem com a fúria de uma tempestade
que  o silêncio entre nós
nos deixe ouvir
“os ruídos das estrelas”

Quando fores embora
e me deixar sozinha no vazio
me sentirei obrigada a ir em busca de nós
no deserto
a recolher memórias
como um arqueólogo de afetos
Talvez me vejas num take esquecido
dos teus filmes
a vagar por um mundo de poeira calor e frio
sedenta do companheiro de viagem perdido
e com olhos carregados de solidão e desejo
a estender os braços para tocar o teu rosto –
uma miragem de fato e gravata
no meu deserto


Um relato de viagem; um texto autobiográfico; uma história de aventuras e situações anedóticas; uma história de amor e sobre a impossibilidade do mesmo; sobre a fragilidade e grandiosidade da vida diante da vastidão desértica da Natureza, do Universo; apenas uma singela homenagem; ou até mesmo um relato de arrependimento por algo que não se fez... Ou tudo isso, ou nada disso, e somente o eficiente efeito de um recurso ficcional, onde traços biográficos reais se mesclam de forma praticamente indistinta de acontecimentos ficcionais.

A verdade é que No Teu Deserto, do escritor português Miguel Sousa Tavares, é um desses preciosos livros em que, a despeito de um texto despretensioso, deparamo-nos com um belo e poético “relato” do encontro e desencontro entre duas pessoas durante a viagem delas para o deserto do Saara (personagem este que pode ser entendido como uma metáfora da desolada condição humana).

Entre em contato com seu agente de viagem ou procure uma agência de viagem, e solicite um pacote para o Deserto do Saara. Perante o silêncio aturdido do atendente, diga, da maneira mais calma e despreocupada possível, sobre seu intuito com tal viagem: provar, experimentar e ler a mesma experiência narrada por Miguel (autor/personagem) em sua viagem para esse destino, na qual ele conhece Cláudia.

“Esta história que vou contar passou-se há vinte anos. Passou-se comigo há vinte anos e muitas vezes pensei nela, sem nunca a contar a ninguém, guardando-a para mim, para nós, que a vivemos. Talvez tivesse medo de estragar a lembrança desses longínquos dias, medo de mover, para melhor expor as coisas, essa fi na camada de pó onde repousa, apenas adormecida, a memória dos dias felizes.” – No Teu Deserto, Miguel Sousa Tavares, página 9, Editora Companhia das Letras, 2009



quarta-feira, 28 de junho de 2017

A Literatura como uma Orgia Perpétua

Não há tragédia maior do que terminar um livro com a expressão de indiferença, da mesma maneira que um autor poder ter ao compor uma obra que, no fim, não lhe desperta nada.

Se você já leu um livro de Literatura na sua vida e, simplesmente, não sentiu nada pelo o que estava lendo, então esquece, desista, você não é um leitor de ficção de literatura e, provavelmente, não entenderia toda emoção e comoção envolvidas no livro A Orgia Perpétua do escritor peruano Mario Vargas Llosa.
A obra é uma análise minuciosa e apaixonada, em um texto envolvente, rigoroso, “fluído”; um relato, um testemunho pessoal do autor/leitor sobre seu contato/leitura desse que é um dos livros mais emblemáticos da literatura ocidental – Madame Bovary.
Mario Vargas Llosa dividiu o livro, basicamente, em duas grandes partes, compostas por vários tópicos-perguntas a respeito da gênese da obra do escritor francês.
Na primeira delas, Mario nos conta, com um entusiasmo incontido, como se deu seu primeiro contato com a obra de Flaubert:

“No verão de 1959, cheguei a Paris com pouco dinheiro e a promessa de uma bolsa. Uma das primeiras coisas que fiz foi comprar, numa biblioteca do Quartier Latin, um exemplar de Madame Bovary na edição dos Clássicos Garnier. Comecei a ler nessa mesma tarde, num quartinho do hotel Wetter, nas imediações do Museu de Cluny. Aí começa de fato a minha história. Desde as primeiras linhas, o poder de persuasão do livro agiu sobre mim de maneira fulminante, como um feitiço poderosíssimo. Fazia anos que nenhum romance vampirizava tão rapidamente minha atenção, abolia assim o entorno físico e me submergia tão profundamente em seu mundo. À medida que avançava a tarde, caía a noite, apontava o alvorecer, era mais eficiente o transbordamento mágico, a substituição do mundo real pelo fictício. Era já de manhã – Emma e León tinham acabado de se encontrar em um palco da ópera de Rouen – quando, aturdido, deixei o livro e me dispus a dormir...”Orgia Perpétua, Mario Vargas Llosa, página 15, Editora Alfaguara, 2015

Na segunda parte começa um processo de “dissecção” do romance de uma forma original, que tenta mesclar a perícia do método acadêmico, típico em criticas e teses literárias, mas valendo-se de uma linguagem despojada, franca, quase ficcional, no sentido de que Mario tenta nos (re)contar uma história escrita por outro pessoa, conduzindo-nos pelos meandros admiráveis da verve criativa e obsessiva de Flaubert, sem que, com isso, percamos a vontade ou a curiosidade de lermos esse livro, para que possamos também nos deixar envolver em uma intricada “orgia perpétua”, também conhecida como Literatura, assim como Emma e seus romances, dramas e amantes. 



domingo, 14 de maio de 2017

Ser Feliz de Novo

Retóricas

quem de nós dois poderia prever
que os gestos de carinho
nas tardes gostosas no meio da semana
ou nas noites preguiçosas de domingo
se tornariam golpe traiçoeiro?

que o olhar com que nos amávamos
em silêncio ou gemidos
se tornaria em olhares enviesados
de acusações e até mesmo ódio?

quem de nós poderia prever
naquela ânsia louca entre beijos e entrelaçar de pernas
o sorriso desdenhoso de um
diante do desespero cabisbaixo do outro?

quem não se sente perplexo diante da lembrança
da alegria incontida dos dias de promessas de amor eterno
quando se encontra ouvindo palavras que contradizem 
tudo o que se viveu e que se quer lembrar?

Monólogo a Dois

- eu te amei em palavras e atos
- eu sei, mas não foi o suficiente
- eu te desejei mais do que a mim mesmo
- eu sei, mas não era preciso
- eu te consolei em todas as tuas quedas, no teu chafurdar na lama
- eu sei, mas eu certamente me levantaria sozinha
- me desculpe se te amei demais
- não faça isso, você sabe que as coisas não precisam ser assim

Retóricas

quem de nós dois poderia prever que tudo ia terminar assim
um sonho palpável, vívido
se esvaindo com a facilidade frágil de uma lágrima sem nenhum amparo?

Monólogo a Dois

- eu te traí, é verdade
- eu te perdoei, não negue
- eu te desejei e te amei, é verdade
- mas também a outra pessoa ao mesmo tempo, não negue
- eu fui fraca ao me deixar levar por loucos desejos
- eu fui tolo em acreditar que você poderia mudar

Doce Desilusão

que estranheza amarga essa de não reconhecer mais
a pessoa que mais se acreditava conhecer em toda sua vida;
que tristeza a desilusão de um amor que acaba;
que beleza indesejável essa de odiar o outro
e se sentir possuidor de uma dor atroz;
descomunal ilusão a dor causa quando percebemos tarde
a causa perdida

Epílogo

culpa de quem – queremos perguntar
mas nos calamos
por que sabemos que se desejássemos saber realmente a resposta
não nos entregaríamos mais a nenhuma outra possibilidade
de sermos feliz ao lado de outra pessoa
Talvez seja melhor sofrer a dor, a mágoa 
de um sofrer que sabemos passageiro
do que a certeza angustiante da impossibilidade de ser feliz
de novo

O Vento Sopra teu Nome

_De Poesias Piegas / Poemas Sentimentais


O vento sopra teu nome
É um sussurro quente, um gemido
Não, não estou perdendo a cabeça
Vejo tudo tão lúcido
Te juro, tenho os olhos limpos

O teu nome é um vento quente
ao pé d’ouvido
Eu te respondo:
- Estou aqui
E o vento passa
Um sopro sem boca
Um som sem grito

Eu sussurro o teu nome
O vento
sopra
e passa
Eu sei que é você
aqui comigo

SOLITUDE




_ter consciência de estar sozinho
põe a gente sentimental
A gente procura por qualquer caminho
mas só encontra um vazio sem-igual_

*
_ter consciência da solidão
é mesmo um pensamento em vão:
...você olha para coisas
as pessoas vêm e vão...
mas nada ganha forma
Os olhos turvos – um borrão_

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Tristeza x Melancolia


Breves considerações sobre a tristeza e a melancolia sob uma perspectiva nietzschiana

- Eu não estou triste. Sou melancólico. Qual a diferença?

Bem, o triste acha tudo sem graça, as pessoas, as coisas, a vida, por uma ou mais razões. Já o melancólico acha que, apesar de nem tudo ter graça e sentido e razão, ainda assim a Vida é uma experiência que vale a pena.

O triste, geralmente, é um debochado, um cínico, um fatalista. O melancólico acha que cinismo e ceticismo sem alegria são sintomas nem sempre óbvios de desespero e agonia; e por isso, considera-se um ser trágico.

O que o triste sente ele contamina a natureza, as suas formas, as suas cores, a sua contingência. O melancólico tem consciência de que, independente do que ele sente, só ele sente, ainda que outros tenham sentimentos semelhantes.

O triste confirma sua visão de mundo nas desgraças da existência, e se desfaz, facilmente, diante de sua patética solidão a encarar-lhe do espelho. O melancólico sente a dor de cada perda, a dor de cada angústia sem motivo aparente, mas, de alguma forma, se alegra quando vê seu reflexo frágil de coragem e medo.

O que sabe que irá morrer e se ressente da vida por isso é um sujeito triste, é uma pessoa com os olhos encobertos pela densa névoa da tristeza.
O melancólico também sabe que vai morrer, isso ele não nega, nem poderia ignorar. Mas também sabe que, enquanto isso não acontecer, terá que viver, escolher, sofrer, amar, perder, ser feliz, ou talvez nem todo esse amálgama de experiências vitais. E é aí, exatamente, nesse ponto de incerteza que reside a força, o desejo, o afã que o impulsiona para que siga, para que diga sim à Vida.