terça-feira, 12 de abril de 2016

ESTICAR


ESTICOU A PALAVRA

                                   T          A         N         T          O
QUE A P

            A

            L         A         V

            R         A         MESMO

PERDEU        S          E         U
                                   N
                                   C
                                   A
                                   N
                                   T
                                                                      O

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

IDIOT WIND


 (inspirado na canção homônima de Bob Dylan, álbum Blood on the tracks)


            E o vento estúpido
sopra minha voz
pra longe de mim

            E quem vai querer ouvir
essa voz rouca
            e fraca
arrastada pelo vento estúpido
feito folha seca fora de rumo

            E o vento estúpido
sopra meu canto
pra longe de mim
mas entre as árvores altas
            e o estalar dos galhos
que se quebram
posso ouvir o Silêncio
            ecoando dentro de mim

            E quem vai querer ouvir
essa voz vagando por aí

            O vento estúpido
arrasta a folha seca
            da árvore
            a folha seca
em branco
            do caderno
faz tombar a garrafa vazia
            e a alegria embriagada
            e a cabeça do homem
sentado na janela

            E ele sente o vento estúpido
que sopra
sempre forte
            cada vez mais
            como se o mundo
            as pessoas
fossem frágeis gravetos
prestes a quebrar

            E quem vai querer ouvir
essa voz
rouca e fraca
            arrastada pelo vento estúpido
            E quem vai querer ouvir
                        uma voz
                        um lamento
de mais um prestes a cair

            E o vento estúpido
(que tudo ignora)
            sopra meu canto
pra longe de mim

            E de boca aberta
prestes a cair
(pela última vez)
um vento estúpido
            sai dos meus lábios
... pela última vez

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O CÃO SEM PLUMAS

O cão sem plumas é um cão. Um homem. Um rio. Sobrevive por aí. Viralata, vadio. Bate ruas. Desce escadas. Suas costelas cinzentas. Magrelas. São tão finas, ósseas. E o cão sem plumas é fraco frágil. Sem plumagem vistosa. Só a pele sem os pelos. Só a febre e as sarnas. A lebre rápida passa ilesa. Que tristeza! E o cão sem plumas só se coça, leproso. Confuso cansado. Os olhos derramados. Duas órbitas de remelas amarelas. Suas patas atadas aos tropeços. Os passos lerdos & incertos. O latir esganado, avesso à natureza.
O Cão sem plumas
é um homem desnudo. Uma margem sem rio. Uma criança banguela. Sempre fiel à sua própria miséria: restos de ossos roídos, raspas de carnes podres, migalhas de afetos lançadas ao chão com desprezo. Ele se arrasta pelo espaço – serpente sem escamas. Amor sem véu.
                   Ele
                      se
                          arrasta
Se afasta
Cai num lago, donde nasce adormecido
A nova forma / o corpo amorfo / um patinho-feio sem espelhos / com um coração e as vísceras de vidro / a lhe saírem pelo peito
                   aberto
Finalmente voa, com suas asas enormes, em direção às
nuvens das profundezas

do (M)ar

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

NUM BREJO

SAPOs de BANDEIRA
turbomusculosos
tuberculosos

COALHADOSESPOLIOS
SapoSopaS
SapoEoleo      SAPOS ‘ BoiS

P
neuMatriX
nelrotoraX
neumania
neo’monia

CROAAAAC

estouros-lantejoulas no brejo in divãneios demict´rios r´gios

KCROOOOOOOOOOOOOOACK!

Anfilábio SulfúricoS
                             Bufo
                                   Bafo


ANURO

quinta-feira, 30 de julho de 2015

NO TEU DESERTO

MIGUEL

quero me perder no teu deserto
no deserto do teu corpo
nas dunas do teu dorso
quero me afogar nas areias dos teus cabelos
que as carícias das tuas mãos
me açoitem com a fúria de uma tempestade
que  o silêncio entre nós
nos deixe ouvir
“os ruídos das estrelas”

*
CLÁUDIA

Quando fores embora
e me deixar sozinha no vazio
me sentirei obrigada a ir em busca de nós
no deserto
a recolher memórias
como um arqueólogo de afetos
Talvez me vejas num take esquecido
dos teus filmes
a vagar por um mundo de poeira calor e frio
sedenta do companheiro de viagem perdido
e com olhos carregados de solidão e desejo
a estender os braços para tocar o teu rosto –
uma miragem de fato e gravata

no teu deserto

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O Poeta no Espelho

Passei a máquina de escrever para o outro quarto,
onde posso me ver no espelho enquanto escrevo. 
Henry Miller, in O Boxeador Polaco, de Eduardo Halfon

acabo de desperdiçar folhas de papel
todas amassadas e sem nenhuma palavra
apenas um vício pegajoso
de cheiro forte

quanto desperdício
frases não escritas
imagens não evocadas

pilhas de folhas brancas amassadas 
com rascunhos de seres de cabeça e cauda

rumo ao mundo sem futuro
mais uma poesia perdida
no fundo, não queria dizer nada mesmo
quanta ironia!
ou autopiedade?
em compor poemas para logo em seguida maldizê-los

- ao menos limpa essa baba do canto da boca. Senta e escreve. Pois as palavras... estas, sim, são teu vício pegajoso.
Elas te submetem, lacônico
e de nada valem os esquivos e os subterfúgios 
e as artimanhas contra os versos.
Nesta luta injusta, em que está prostrado, 
as tuas mãos cavam o teu abismo sob teus olhos
a refletirem tua deprimente imagem 
nas janelas escuras
do teu quarto

enquanto escreves para esquecer como se escreve
um poema sem pautas
patético périplo estético
poeta
nu
no espelho

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Ameaças Homeopáticas de Suicídio

OS VERSOS
OS POEMAS
A POESIA

O CHORO
O RISO
A RAIVA

A MASTURBAÇÃO
O DELIRIO
O VICIO

O GOZO – A SOLIDÃO

- TUDO! TUDO!
Tudo por VOCÊ
E o pior de tudo
é que eu já nem sei mais
quem é você

*


Logo Após as Ameaças Homeopáticas de Suicídio

Nada de você me resta
Nada de você me deixa
Nada em você me diz

Nada de você é tudo o que quero

Mas nada... Nada... Nada...
- me aconselha essa cartomante
transoceânica

E eu vou me afogando
nadafraugando aos poucos
nesse mar corroído
nessas salsugens amarosas