sábado, 6 de agosto de 2022

Poetas roubam

Otto, os poetas roubam

Roubam tudo que é poesia

Eles roubam a luz da manhã

E do sol da tarde que arde fria


Os poetas roubam

Eles não sabem criar

São crianças imersas

Em palavras diversas

De versos e rimas

Poetas roubam

Esse é seu jeito de brincar


Os poetas roubam 

Suspiros apaixonados

E o choro convulso

De quem se desespera

E guardam tudo em suas memórias confusas

Escrevem como se sentissem

E sentem o que não escrevem


Nunca confie num poeta, Otto

Poetas roubam

E a poesia não passa de uma coleção

De objetos e artefatos alheios


Poetas roubam

Aquele beijo doce

Roubam

Aquele grito amargo

Roubam

Aquele riso frouxo

Roubam

Aquele triste fado


Suas palavras versam sobre a Vida e a Morte -

Esta lida contínua entre a sobrevivência e a plenitude

Eles clamam "Viver é eterno!

Mas amar, amar dura só um instante"


O verso encobre a tragédia do existir

Viver sempre foi um exercício

Um jogo de amarelinha, não é mesmo Horácio

Uma brincadeira à beira do Grande Abismo

Ainda que houvesse Céu e Inferno

Entre eles também haveria de ter 

muitos passos, muitas casas

Atirar uma pedra em rumo delas

é jogar-se no mundo e se arriscar

Poucos sabem ignorar a máxima suprema -

Viver é muito perigoso


Ouve! Escuta! Repara nestes versos...

É assim que eles nos roubam, Otto

Distraídos, rimam, versam, nos hipnopoetizam

Poetas... roubam

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Tenho caminhado pela noite

Tenho tido noites insones, maldormidas Tenho vagado pela noite
Entrando e saindo em becos de madrugadas
onde amantes se rasgam
na euforia de corpos frenéticos
A madrugada vermelho-escura geme - 
é da minha boca que sai os seus gemidos

Tenho andado pela noite
esbarrando em sonhos
de balões que estouram, 
pipas que não voam, 
palhaços malditos
Fantasmas me assombram
e eu atônito do sentimento de medo
mesmo homem crescido

Crescer não é o mesmo que amadurecer
Frutas amadurecem suspensas em galhos:
Prontas, felizes com o salto para a Morte
Eu tenho morrido diversas vezes
e de diferentes maneiras
Viver é ter que escolher entre infinitas possibilidades
A noite inquisidora te pergunta: então, o que queres?
Você puxa o cobertor, abre um livro,
entorpece a mente
Mas a Dúvida está sempre presente
A te espreitar sem brilho nos olhos,
um riso debochado - o que queres de mim?

Tenho caminhado pela noite
sussurrando teu nome baixinho
para que a força das palavras
não invoquem tua presença
Estarás dormindo? Ou também perdida em meio a pensamentos que te arrastam para uma praia vasta e iluminada
onde tudo é sombra e luz

Tenho caminhado pela noite
procurando teu nome
em paredes de concreto, frases não ditas,
choros escondidos,
como se fosse possível encontrar algo tão frágil, sensível
num mundo onde ruas acabam 
em curvas sem sentido

Tenho caminhado pela noite
sonâmbulo, soturno
procurando teu nome
em lugares impossíveis
E é nessa busca perdida e malfadada
onde encontro teus olhos
me olhando distantes
a me questionar: o que queres de mim?

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Them e a representação da violência

A série Them, disponível no serviço de streaming Prime Vídeo, tem sido descrita com adjetivos como violenta, cruel, sádica, pesada, impactante, polêmica, até mesmo desnecessária e etc. Ambientado nos anos 50, a trama principal foca em uma família negra que se muda da Carolina do Norte para um bairro branco. O que poderia ser a realização de um sonho de uma família qualquer se revela logo de cara um pesadelo. Além de terem que lidar com as dores e os sofrimentos individuais, marcados por acontecimentos traumáticos, os Emorys terão que enfrentar as táticas de tortura de uma vizinhança de supremacistas brancos.


Ao longo de 10 episódios, Them se propõe a retratar de modo explícito as táticas de violência (física e psicológica) que supremacistas brancos sempre impuseram não só às pessoas negras, mas também a toda e qualquer pessoa ou grupo que eles considerem merecedoras de seu desprezo pelo simples fato de serem que são - diferentes deles.


Se a produção é, em alguma medida "violenta" é, simplesmente, porque pinta um quadro de atrocidades valendo-se de recursos narrativos que buscam refletir todo um repertório de horrores que homens e mulheres brancos (autointitulados como "bons cristãos" e puros de sangue e de raça) usaram e ainda usam para justificar seus preconceitos raciais, sociais e de gênero.


Them é uma obra audiovisual, como tal era de se esperar que seu impacto nos espectadores cause todo tipo de sentimentos e reações. Como obra pública, no sentido de que é exibida por um serviço acessível a um determinado público assinante do streaming, está sujeita às diferentes apreciações estéticas e ideológicas. A série não se propõe a ser tida como um retrato único e inquestionável para se tratar do assunto racial - assunto principal - e de outros temas subjacentes, uma vez que ela ainda traz denúncias contra os valores machistas de uma sociedade notadamente marcada pela lógica patriarcal (basta ver como as personagens femininas são tratadas pelos seus maridos, pais, vizinhos); de uma sociedade homofóbica (vide Clark) e elitista (pais da Betty). Ao tratar desses assuntos, a série evidencia todo um contexto no qual as formas de discriminação, seja racial, social ou de gênero, estão diretamente correlacionadas, pois seus mecanismos internos operam sob uma mesma estrutura de pensamento: a de segregar os diferentes e beneficiar com privilégios os que são considerados iguais.


De um modo geral, pode-se apreciar uma produção ficcional e ainda assim desenvolver um olhar crítico sobre ela, um olhar analítico que vise interpretá-la tendo em consideração os contextos sócio-históricos a que ela se refere e no qual ela é produzida e exibida.

As acusações de que Them é desnecessariamente violenta cometem, no mínimo, um equivoco de juízo de valor, seria como acusar, por exemplo, os filmes sobre o holocausto dos judeus pelos nazistas alemães de serem impactantes demais para um público que, pretensamente, deveria ser poupado de assistir a representação cinematográfica de eventos históricos de uma barbaridade difícil de ser aceita e compreendida como tendo sido empreendida por seres humanos que são iguaizinhos a nós, ainda que hajam as óbvias diferenças em termos culturais. O que deveria chocar em Them é a violência que está sendo denunciada, não a "crueza" com que se faz isso.


Seguindo a tendência de misturar o gênero cinematográfico mistério/horror com denúncia social, cujo expoente contemporâneo tem sido os filmes de Jordan Peele, a série cumpre seu papel como entretenimento, tem um bom enredo, as atuações são impecáveis, principalmente da atriz que faz a personagem Lucky Emory, tem episódios marcantes e cenas emblemáticas, e tudo isso sem abrir mão de um olhar crítico e provocativo sobre fatos da vida real. 



terça-feira, 16 de março de 2021

Invocando deus-Cosmo

 Oh deus, deus, deus

por quê eu não acredito mais em você

em algo assim maior do que eu

Meu ateísmo ressentido é só isso, deus

esse sentimento doído

de gozo forçado

de saber que sou pequeno

e que você nos abandonou

ou fomos nós que o deixamos para trás

como uma roupa velha que não nos veste mais

ou como chinelos rasteiros de correias arrebentadas


Oh deus, deus, deus

por quê não consigo mais acreditar

naquelas que alegam terem sido suas palavras

palavras tão humanas, oblíquas, inexatas

É um inferno - eu lhe confesso - eu lhe imploro

ser assim só nós - só eu (sou eu?)


E essa dúvida constante de será que nos ouve

E se nos ouve, por que então não nos responde [diretamente

sem mensagem cifrada ou spam inconsciente


Eu lhe perdôo por ser assim

esse corpo sem forma, essa luz sem brilho

essa seta que corta o vento

e ao mesmo tempo o deforma


Oh deus, então é isso, esse espaço vazio

Vácuo

Somos só nós dois: matéria e antimatéria

se aniquilando constantemente

para que um Outro além de nós possa existir


Eu não sou, não existo

Sem nós é você que inexiste

Hipótese ontológica improvável


O único que há, sem que haja

É o Cosmo - esse infinito feto




domingo, 27 de dezembro de 2020

Girls do not dress for boys

Parte III
 
Droga, será que teremos alguma chance de nos aproximar. Um esbarrão "sem querer", uns pedidos de desculpas desajeitados, uns toques de mãos bem sutis, quase só um roçar tão de leve que só sentiríamos uma sensação estranha, gostosa, de um atrito imperceptível. Eu te pediria desculpas mais uma vez por ter derramado parte da sua bebida na sua roupa, bem em cima da frase estampada, deixando uma mancha na palavra "dress". Você me diria "não, tudo bem, não foi nada". Eu tentaria limpar a sua blusa mas então perceberia que não seria nada educado uma vez que a palavra manchada estava bem na altura do seu seio. Eu ficaria parado na sua frente, com um pedaço de um guardanapo ou um pano qualquer, fazendo gestos desconexos, até que você perceberia meu embaraço e diria "pode deixar que eu mesma limpo". Trocaríamos olhares ingênuos, maliciosos, daquele tipo de malícia tão casual que chega a se confundir com a ingenuidade de dois namoradas adolescentes descobrindo o gesto delicado do amor, o doce gosto da atração. Uma de suas amigas lhe chamaria, perguntando sem interesse o que estaria acontecendo. Você diria "já vou, não foi nada". Eu só te olhando, observando a cena como se não fizesse parte dela. Você olharia para mim ainda mais uma vez sorrindo, talvez por educação, ou por não saber exatamente como agir, ou simplesmente porque seria o único gesto possível diante de uma situação trivial. Eu te diria meu nome. Mas você não ouviria, pois já estaria se virando em direção a suas amigas enquanto sussurraria um "até". Essa seria a palavra que me atormentaria a noite inteira, semanas, meses, anos... "Até", até que não houvesse mais razão para eu ficar adiando de chegar em você; até que talvez nem tudo seria um desastre sentimental depois de uma rejeição direta e honesta; até que eu me convencesse de que eu realmente te queria mas por não saber como te dizer isso, eu correria um risco enorme de ficar me remoendo num vendaval de suposições improváveis ignorando completamente o fato mais importante disso tudo: o encontro entre duas pessoas nesse mundo já é um evento suficientemente raro para que eu tentasse impor mais uma variável de impossibilidade para que nada acontecesse e tudo fosse apenas isso, um devaneio de um cara sozinho numa festa, num bar. Você me sorri de longe. Dessa vez não há dúvida, pois está olhando diretamente para mim. Eu penso, meio bobo, meio orgulhoso, que cara de sorte que eu sou. Vou ao seu encontro. A partir de agora dançamos sem saber com o destino. Quem sabe que história iremos escrever juntos. Talvez seja imprudência da minha parte, mas a primeira coisa que vou te dizer é que gostei da sua camisa.

Garotas não se vestem para garatos

Parte II
 
Você me olha, rápido, de relance, como quem olha para um ponto específico mas precisa fingir que está só observando despretensiosamente o espaço ao redor. Estou sorrindo, feito um idiota. Sozinho. Um copo na mão. Já nem lembro que bebida é essa. Vai ver já estou agindo sob o efeito do álcool - ah, essa velha desculpa... Vai ver esse meu interesse por você, por conta de uma frase numa camisa, seja só a desculpa que eu preciso para justificar para mim mesmo algo que eu mesmo nem sei como funciona bem. Essa coisa, sabe, de atração e conquista. Posso até usar o termo amor, mas sei que é de forma imprecisa. Sei que não é isso, pelo menos não ainda. Que idiota que eu sou. Mantenho um diálogo com você em pensamento, enquanto isso a festa segue solta, pessoas curtindo, dançando... Você segura o copo com sua bebida misteriosa azul. Cintilante. Nem te conheço direito, nem mesmo sei o seu nome, mas já tenho uma listinha incompleta sobre os seus trejeitos que mais gosto: você parece realmente interessada em ouvir os outros, percebo que, quando suas amigas falam diretamente para você, você mantém o gesto de levar o copo à boca suspenso até que a pessoa conclua o que está lhe dizendo, e só então, após um comentário, você retoma o gesto que estava fazendo; outra coisa que já notei é que você ajeita os cabelos de tempos em tempos, ajeitando-os atrás das orelhas, por sinal, belas orelhas, sustentam um par de brincos delicados, o pingente parece ser algum animal ou talvez seja uma estrela. Não sei. Já disse, dessa distância mal consigo distinguir um sentimento de outro. Miopia sentimental, afetiva. Só me resta te idealizar, achando estúpido elogiar as orelhas de alguém. A pessoa elogiada pode ver nisso um sinal velado de algum fetiche depravado. Juro que não, não é isso... Também adoro o modo como você se prepara para sorrir. Alguém lhe diz algo e logo sorrir, os dentes às mostras, a boca aberta. Você não, você primeiro faz um semi-biquinho com os seus lábios miúdos, você fecha os olhos por um milésimo de segundo e, ao abri-los, aí sim, você sorrir, um sorriso lindo, meigo... Queria tanto te beijar. Minha nossa, não posso, não devo pensar essas coisas. Nós nem nos conhecemos. Se soubesse desses meus devaneios, provavelmente me acharia um depravado piegas, desses que estão à solta por aí.

Garotas não se vestem para garotos

Parte I
 
Se estivéssemos em outro lugar, e eu te visse com essa camisa, certamente te chamaria pra sair. Claro que precisaria de um tempo considerável até conseguir reunir o mínimo necessário de coragem e desfaçatez para chegar numa mulher que está usando uma blusinha com uma estampa visivelmente com dizeres feministas, quase como se essas palavras estampadas - "girls do not dress for boys" - fosse um aviso, um alerta para possíveis impertinentes, ou servisse como um escudo contra possíveis ataques de sujeitos sem noção.

Talvez fosse mais sensato não chegar em você. Seu aviso é direto, claro, objetivo. "Garotas não se vestem para garotos"... Mas se você não queria ser abordada, se não queria que alguém chegasse em você num lugar como este, um bar, onde a maioria das pessoas vão para se refugiar de seus problemas cotidianos e buscar o consolo de companhias ainda que passageiras, por que então ir com um aviso estampado no peito que queria dizer, em outras palavras, "olha, estou aqui, vestida assim, com meus amigos e minhas amigas, mas não ache que estou vestida assim porque quero impressionar você e os de sua espécie"? Tudo bem, admito, estou projetando e idealizando demais. Talvez você nem importasse de ser chamada por um cara assim como eu para conversar e beber algo (não que eu seja um cara tão especial ou diferente assim de outros). Talvez, talvez eu só esteja alimentando essa tendência masculina em achar que sempre devemos puxar conversa com uma mulher, por acreditar piamente que ela tem meio que a obrigação de nos corresponder e aceitar nosso convite. Que ideia mais machista e estúpida, não é mesmo.

Desculpe esse meio jeito, teorizo em excesso, e a verdade é que te notei já faz um tempão mas ainda não tive coragem, ou melhor, ainda não achei o "melhor jeito" de falar com você.

Todos aqui estão vestidos para garotos e garotas, moças e rapazes, homens e mulheres. As nossas roupas são nossa plumagem, é o modo como imitamos a natureza na sua habilidade de criar características que envolvam dois seres (ou mais, não sei...) para gerar atração, acasalamento, vida. Nos vestimos sempre preocupados com o olhar alheio, o que vão pensar de nós, como irão olhar para nós por estarmos usando aquela calça e aquela blusa, ou aquele sapato e aquele vestido. Somos narcisos admirados com a nossa própria imagem refletida no olhar do outro, no modo como o outro deixa evidente que nos olha. Você percebeu que eu estou já há um tempo te observando, meio sem jeito, achando que estou sendo discreto mas no fundo nós dois sabemos o que está acontecendo. Quer dizer, eu acho que você já notou meus olhares insistentes, curiosos, desejosos a seu respeito. Merda. Queria tanto poder chegar até aí, até onde você está, te fazer um elogio, que é a primeira alternativa que temos nessas situações antes de conhecermos mais a fundo uma pessoa que possa ter despertado algo na gente e então usarmos de outros "artifícios" de conquista. Fico curioso, querendo saber o que você está bebendo. Parece algo meio azul, não sei, dessa distância, minha inabilidade para distinguir cores é uma miopia preocupante. Certamente é alguma bebida doce. Não lembro de nenhuma bebida destilada com esse tipo de coloração. Não que eu seja um expert em drinques e bebidas e coisa e tal. Só estou deixando os pensamentos seguirem num fluxo contínuo, quem sabe eles não me levam direto até você. Acho graça dessas coisas na minha cabeça, meus pensamentos.