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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Benevolente Escravidão

Geme, escravo maldito!
Meu chicote te morde a pele
E arranca teu sangue
Com açoite e destreza

Geme, maldito, herdeiro do Cão!
Hoje, ou te mato nesse tronco,
Ou te arrojo nesse chão

Beija o chicote antes que ele estale
Os lábios látegos nessas tuas costas fendidas
Sinta o gosto do teu próprio sangue
Veja como ele deságua
Vai me pagar por cada gota do meu suor
Por eu estar aqui, a te açoitar

(Chicote, lépido, fremente no ar, estala
Negro se contorce)

Vamos, negro maldito
                Chore
                Implore
Basta pedir perdão
pois teu Senhor é cristão benevolente
                e te castiga somente
                para que tu não te percas
                em vão

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

No Metrô

A cabeça encostada no vidro da janela do vagão do metrô. Os olhos dela estão lacrimejando. Algumas pessoas olham para ela ou disfarçadamente ou de forma direta. Ela mastiga algo que pode ser um chiclete borrachudo, uma bala já sem doce ou amendoim espedaçado. As pessoas olham para ela. Ela mastiga e chora. Mas chora sem lágrimas. É possível apenas ver seus olhos submersos em um líquido transparente, translúcido. Ela olha para o celular, depois, para lugar nenhum. Da janela do metrô só se vê uma sucessão veloz de escuridão entrecortada por instantâneos de luz. Ela mexe a boca, morde os lábios. Parece estar se esforçando ao máximo para não chorar, pelos menos, não ali, naquele espaço público, no qual, as pessoas acham que são obrigadas a fingirem, com um cansaço desmedido, indiferença mútua. Mas todos ao redor dela estão olhando para ela, observando, curiosos do possível motivo do seu aparente sofrimento.

Eu a vejo não diretamente, mas através do reflexo dela na porta do vagão. Fico pensando, querendo saber: o que terá acontecido? só mais um dia ruim de rotina e falta de melhores expectativas? uma palavra rude que gerou uma discórdia amorosa, ou talvez familiar? quem sabe, talvez algo mais profundo e abstrato, uma angústia existencial? Seus olhos apenas lacrimejam. Ela parece murmurar mas não se ouve nada. Só nos resta imaginar, projetar, especular.

Alguns passageiros desembarcam a cada estação. E ela permanece lá, alheia aos anúncios de próxima parada, com a cabeça encostada na janela do vidro do metrô. Quem a observava, antes de desembarcar, dá mais olhada como que para se certificar se ela não se entrega de vez e chora logo, um choro dolorido, sem receios ou cerimônias. Ela mal se mexe, impassível à curiosidade alheia.

Minha estação já passou. Decido seguir em viagem. Vou segui-la, ver aonde ela vai. Será que outros passageiros também estão fazendo o mesmo que eu. Muitos, certamente, já deveriam ter desembarcado, mas, presos a essa curiosidade um tanto invasiva, deixaram-se seguir para acompanhá-la, também.

Uma voz anuncia que a próxima parada será a última e que todos deverão descer. Logo após  este anúncio, todos olham para ela, que parece chorar sem lágrimas, como que esperando ansiosos por uma definição sua, por um gesto qualquer. Ela não diz nada, não faz nada. Todos se mostram desesperados, deslocados diante dessa situação insuportável de invasão coletiva de privacidade. Ela continua sem se mover, sem chorar de uma vez. A cabeça grudada no vidro. Os olhos se afogando melancolicamente. Cada um dos expectantes invasivos tenta se distrair com alguma banalidade, como conversar com o amigo ao lado, reclamar do atual do governo, maldizer as mudanças climáticas repentinas da cidade, olhar o celular.

Ela se levanta, devagar. Vai em direção à porta. Sempre a olhar para algo que nenhum de nós parece ser capaz de captar. Alguém grita: Ei, moça, acho que isso é seu...! Ela desembarca e segue pelas escadas rolantes sem nem olhar para trás. 

terça-feira, 9 de abril de 2013

Ela - o pensamento em mim

Ela – o pensamento em mim

Não basta estar ao seu lado
É no seu pensamento
Que eu quero estar com você


Fico pensando. Quero saber no que ela pensa. Se pensa em mim. Se sente necessidade de saber o que penso, como estou. Se ela sente minha falta, minha ausência. Meu silêncio.
Não me importa muito saber onde ela está com quem ela está. O que quero o que me preocupa e me interessa é saber se ela está com a cabeça em mim. Distraída, absorta. Os pensamentos dela cogitando sobre mim. Sobre o que penso. Se penso nela.
Penso nela. Muito. Muito mesmo. A cabeça dói. Os pensamentos se dilatam. O estômago. As enzimas. O sofrimento é na carne. O organismo implora, precisa dela. Ela, meu alimento. Minha morfina. A ausência dela, uma crise de abstinência. Azia. Cólica. Diarreia de maus pensamentos. Ideias ocas, frouxas. Confusas.
O que ela pensa?
O que ela pensa?
Pensa em mim, na certa.
Não sei. Não se sabe. Tantas outras coisas na vida, no dia a dia. No inferno do cotidiano.
Exterminar tudo. Só eu e ela. O outro para si mesmo. Nós dois. Mais nada. Sem aflições, pessoas, acontecimentos alheios.
Os dois a par de tudo o que acontece e se passa com o outro. Sem mistério. Sem segredos. Sem distâncias.
Eu sei o que ela pensa.
— sei o que você pensa. Você não pensa em mim durante todo o tempo. Tem outras coisas, eu sei. Outras coisas, mas será que você não sabe, essas outras coisas são insignificantes. Não servem para nada. Só para nos destruir. Para nos distanciar. Gosto de você. Quero você. Quero que você pense em mim a todo momento. Sem se deixar distrair pelo mundo em volta. Ele não interessa. Obsessão, quero ser o seu objeto de obsessão. É isso. Obsessão. Delírio. Devaneio. Ternura.
Quero saber o que ela pensa quando pensa em mim. O que ela sente. Como se sente. Alegria. Alívio. Desejo.
— eu penso em você. Me ocupo só de você. Não passo um segundo sem pensar em você. Você a todo momento. Você a toda hora. Penso sem você, que você pensa em mim também naquele exato momento, e me sinto bem. Sinto conforto. Segurança. Tudo faz sentido num mundo de absurdos. Minhas ideias ficam claras. Meus olhos brilham.
Ah, como tudo é maravilhoso, ela pensa em mim!
Até mesmo quando olha para outra pessoa. Até mesmo quando conversa com outro alguém. E até nas ocasiões mais improváveis, sim, sou eu o pensamento dela.
Não haveria por quê ser diferente, de outra maneira. Estou na cabeça dela. Sou sua ideia fixa. Seu pensamento constante. E quando ela pensa em mim não há com que se preocupar.
A vida plena, a vida bela somos nós dois. Um em relação ao outro. Pensamos do mesmo jeito, pensamos as mesmas coisas porque pensamos, sem parar, sem tréguas, um no outro.
Pensar nisso tudo ainda não é suficiente para me acalmar. Confio nela. Sem dúvida. Mas o cérebro da gente é uma presa fácil. Vulnerável. Se deixa fisgar facilmente. Mas é preciso resistir – ela sabe. Eu sei que ela sabe, que ela pensa em mim.
Eu sei muitas coisas. Muitas coisas que não me servem de nada. Queria ter a ciência, a capacidade intuitiva, a habilidade física de saber os pensamentos dela, de adivinhá-los. De transformar todos eles em pensamentos sobre mim. Um mimetismo intelectual, afetivo, amoroso. Reflexivo.
A razão dela passando por mim. Suas palavras ocultas. Eu filtrando tudo. Purificando. Contaminando. Tudo que ela pensasse seria em mim. Sobre mim. Nós dois. Mais nada. Mais ninguém.
A vida essencial – somente eu e ela. Numa confluência infinita de pensamentos, reflexões, desejos, sonhos.
A existência perfeita – eu, pensando nela, ela, o pensamento em mim.