...Continuação
ele para, pensa, reler o que já escreveu
até ali, satisfeito do resultado. na verdade, sabe muito bem que terá que
prosseguir por uma via tortuosa, cheia de atalhos falsos, becos sem saída,
bifurcações ilusórias. já desapontado, ele sabe que tudo isso não passa da realização
exata do que ele considera ser um fracasso. pois para poder escrever terá que
superar o próprio ato da escrita. e ele não sabe como fazer isso. já leu tantos
livros, tantos ensaios de outros que, ele ao menos acredita, passaram e
superaram esses mesmos desafios pelos quais ele está passando agora. ele lembra
de um artífice muito usado, que quase sempre dar certo: escrever sobre a dificuldade
de escrever, ou seja, fingir que está escrevendo algo quando o que se está
realmente fazendo é valer-se das palavras para combatê-las. não se está
expressando nada – o que se passa, na verdade, é uma batalha inglória.
o seu orgulho provem dessa certeza cabal
de que irão admirá-lo por sua destreza. por sua persistência em fazer deitar
essas coisas flutuantes em papel estático, impresso. o que seria de um escritor
se não fosse essa ilusão... essa ilusão de vencer sempre as palavras, de rendê-las, de domá-las, quando
estas, senhoras soberanas em seu reino semântico, alinham-se sucessivamente no
texto causando a ilusão de se estar lendo o que se pretendeu escrever. dois tolos e pobres coitados: o que escreve e o que ler..
elas não dizem nada. um escritor não tem
nada a dizer. sua voz é tão rouca quanto à das outras pessoas, seja ele um
escritor dito experiente ou novato. seu estilo, sua prosódia, tudo mero efeito de
uma retórica acadêmica. arrancai cada palavra, uma por uma, de um texto do mais
célebre escritor, e verás que não passam de artefatos fossilizados, de um
maquinário engenhosamente arquitetado mas, simplesmente, carente de qualquer
sentido em si mesmo. as palavras em si mesmas nada dizem. são só os ouvidos humanos que são
suscetíveis demais às vibrações de partículas sonoras em atrito com o ar. e o
cérebro humano encarrega-se de lhes atribuir sentido, principalmente, os sentidos aos quais ele
já está acostumado.
cena deplorável a de um pretenso
escritor prostrado diante de meras palavras irrequietas, prenhes de sentidos
ambíguos, de imagens difusas sem objetos definidos. ele vai parar. vai
desistir. de tudo o que tinha pensado em escrever, só lhe restam essas mal
traçadas linhas. perdeu-se em seu próprio turbilhão de ideias. perdeu-se entre
seus pensamentos e os pensamentos dos escritores fantasmas que o antecederam.
tinha pensado em tantas coisas, em tantas tramas entre personagens intrigantes
interagindo entre em si, mas acabou aí, diante de um texto sem nexo, sem substância,
de uma espécie barata de monólogo interior sobre o ato da escrita, um arremedo
de reflexão metalinguística à maneira daqueles que ele tanto admira. por que
será que todo escritor se acha digno de pena quando falha, quando vê seus
esforços exauridos depois de horas e horas de reflexão e escolhas das melhores
frases, dos melhores trechos, da melhor forma de compor um texto – tudo isso
para não dizer nada, tudo isso para disfarçar seu desespero, sua mesquinhez e
insignificância perante o mundo. ele tenta compreender de onde se origina esse pretenso direito da
humanidade de se compadecer do seu insucesso, da sua derrota incontestável e
absoluta. de onde provem essa ilusão de ser devidamente compreendido.
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