sábado, 5 de outubro de 2024

Tentações de um cético

Estava eu sentado na praça de alimentação de um shopping numa cidade que não era a minha. Estava na boa, só curtindo aquela preguicinha típica que dá na gente depois que comemos. Mexia no celular, olhando de bobeira as postagens nas redes sociais, quando chegaram dois rapazes e se colocaram na minha frente. Um deles me perguntou algo, mas, como eu estava distraído, pedi que repetisse. Ao fazê-lo, suas palavras pronunciadas com calma e firmeza se tornaram mais claras: 

  • - Posso, ou melhor, podemos orar por você? 


  • Estranhei aquela pergunta. 


  • - Mas como, orar por mim?! 


Ao que o meu interlocutor repetiu sorrindo, mantendo a voz firme: 

  • - É! Podemos orar por você?


Atônito na minha incredulidade, olhei, primeiro, para o rapaz que me perguntara e, depois, para o outro, que o acompanhava, tentando captar algum sinal neles que pudesse indicar que aquilo se tratava de alguma brincadeira, alguma pegadinha, dessas que gravam as pessoas por aí e depois transmitem nas redes sociais, expondo o ridículo do ser humano diante de situações descabidas. Ainda pensei se tratar de alguma piada religiosa, talvez algo que fosse comum entre aqueles que professavam aquela fé (seja lá qual fosse). Não disse nada para eles. E sorri sem graça, mal abrindo a boca. 

Eles permaneceram diante de mim, tranquilos, serenos. Como eu demorasse para responder, notei que, o que me fizera a pergunta (ou seria uma proposta), demonstrava uma certa ansiedade, provavelmente, na expectativa de que eu aceitasse logo sua oferta. Permaneci calado também, coloquei o celular em cima da mesa, com a tela desbloqueada. Queria que vissem o tipo de conteúdo que eu estava acessando naquele momento tão prosaico. O outro, que não falara nada, desviou o olhar da tela do meu celular. Já o meu interlocutor continuava olhando para mim como se eu fosse capaz de entender suas intenções através do seu olhar persistente.  

Me ocorreu que, assim como os santos antigos passavam por provações e provocações de entidades diabólicas, com o aval do assim chamado divino superior, aqueles rapazes, no meu caso, eram como que os enviados de uma estância desconhecida, na qual eu não acreditava, mas que, talvez, tivessem sido ‘enviados” justamente para colocar à prova as minhas convicções metafísicas. Diante de tal constatação, por mais absurda que me parecesse, resisti àquele apelo religioso, que quase cedi por mera educação. Pensamentos céticos me dominaram, orientando-me de forma resoluta na minha decisão em recusar aquela oferta. E eu disse, simplesmente: 

  • - Não.


Já certo de que teria que contra-argumentar diante da persistência dos meus “anjos caídos”, peguei o celular da mesa para demonstrar meu desinteresse por eles. Chegara uma notificação de mensagem. Já ia proferir algumas palavras de resistência, mas, ao levantar a cabeça e me dirigir aos rapazes, eles haviam desaparecido, tão repentinamente como tinham surgido minutos antes. Virei a cabeça, olhei ao redor procurando entre as poucas pessoas que transitavam àquela hora pelo shopping se não identificaria os dois jovens. Seja porque, certamente, se misturaram aos demais transeuntes, seja porque, na verdade, não retive com atenção aspectos que me ajudassem distingui-los dos demais, certo é que não fui capaz de localizá-los. 

Tentei desbloquear o celular por várias vezes, mas sem sucesso. Na tela, só conseguia ler a mensagem: telefone bloqueado por várias tentativas erradas. Aguarde e tente novamente. Foi o que fiz. Mesmo assim, nada. 

Fiquei pensando: é cada uma que uma pessoa cética, descrente de tudo, tem que passar às vezes...